22 de Outubro de 2018,

Opinião

A | A

Quinta-Feira, 11 de Outubro de 2018, 12h:40 | Atualizado:

Roberto Boaventura

Nosso porvir

roberto.jpg

 

No último dia 07, ocorreu a polarização política que não poderia ter ocorrido em nosso país. Lembrando Drummond, eis a clássica pergunta: e, agora, José? 

Agora, precisamos tentar entender os porquês de termos chegado a esse ponto de tão perigosa divisão, que, aliás, mal começou. Se, no segundo turno, se confirmar a vitória dos bolsonaristas, o que parece provável, muita coisa nova – e não necessariamente razoável – estará por vir, podendo transformar o porvir de muitos brasileiros num verdadeiro inferno. 

Na tentativa de pensar sobre os motivos que nos trouxeram a esse ponto de esgarçamento, é preciso ouvir e compreender a sustentação discursiva que deu a vitória – por ora, parcial – a Bolsonaro, um antigo deputado federal que sempre esteve nas fileiras do baixo clero do Congresso. Antes de se lançar à presidência, Bolsonaro, saído da reserva das Forças Armadas, raramente era lembrado – sequer visto – por alguém que não fosse do Rio, seu estado de origem. 

Mas, afinal, qual é a base discursiva dos bolsonaristas? 

Resposta: é tríade Tradição, Família e Propriedade. Em outras palavras, a famosa sigla da entidade cristã TFP, cujo lema, no Brasil, é “ipsa conteret” (“Ele vai”), retirado do universo bíblico (Gênesis; 3,15). Centralmente, aquela passagem bíblica refere-se ao ato do esmagamento da cabeça da serpente que provocara um tipo de “abalo sísmico” no Paraíso; ou seja, uma lorota que nos acompanha desde o ventre, mas que tem efeito devastador coletiva e individualmente. 

Mas por que esse discurso conservador/reacionário, que estava adormecido, reapareceu agora? 

Justamente porque ele estava adormecido, não extirpado; logo, se provocado fosse, poderia se reanimar. Provocado foi. Reanimou-se. 

Quem o provocou? 

Antes de quaisquer outros, os adversários diretos dos bolsonaristas no primeiro turno, ou seja, os petistas, que, aos bolsonaristas, incorporam o fazer maligno da serpente, que precisa ser esmagada. 

Cá entre nós, a corda foi esticada demais, e por muito tempo. De fato, não é qualquer um que aceita friamente um presidiário dar ordens políticas, de dentro de sua cela, para manipular seu partido. Isso pode ter sido a gota d’água. Mas antes da gota, um tsunami ocorreu durante o reinado petista, eleito com base em discursos de honestidade política. 

Desse tsunami fazem parte dois esquemas criminosos: o Mensalão e o Petrolão. Se aos petistas apaixonados isso é irrelevante, podendo ser esquecido e perdoado, aos demais brasileiros, não necessariamente. 

O discurso petista de “eles também são corruptos” (e, de fato, são) parece que não terá a sustentação e a duração que se pretendia. Ele poderá ser interrompido com a ascensão dos bolsonaristas ao poder. 

Com essa subida, esmagando a cabeça da serpente petista, tudo o que pode estar por detrás da “tradição”, “família” e “propriedade” virá com força por meio de decretos, projetos de lei, emendas constitucionais... 

E o que está por detrás desses termos acima? 

Com base no discurso de defesa da ordem e da segurança, encontra-se o conjunto de direitos humanos duramente conquistados. Eles poderão ser perdidos. Com certeza, serão interrompidos. 

Dificultadas também serão as lutas do “politicamente correto”, que, cá entre nós, também esticou a corda desnecessariamente em várias situações. Nesse bojo, novos (e reacionários) direcionamentos para a educação poderão vir. 

Enfim, o porvir do povo brasileiro será vigiado, controlado; logo, apequenado. 

O que nos resta? 

Saber que “desesperar, jamais”. 

* ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Prof. de Literatura/UFMT; Dr. em Jornalismo/USP 

rbventur26@yahoo.com.br 

 

Postar um novo comentário

Comentários (3)

  • alexandre | Sexta-Feira, 12 de Outubro de 2018, 16h13
    2
    0

    ainda mimimi gope....

  • inacio | Quinta-Feira, 11 de Outubro de 2018, 17h15
    2
    3

    Bolsonaro é uma espécie de efeito colateral da luta (que na minha opinião foi feita de maneira errada) LGBT. Eu não votei nele no primeiro turno e hoje temos um duelo de indesejáveis. Se não houvesse essa demonização dele por certos grupos e inclusive o (ele não) como movimento que por incrível que pareça tinha a função de barrar mas somente o alavancou ainda mais. Creio que no segundo turno essa vaga deveria ter ficado com o Alckmin ou Amoêdo. Parabéns esquerda brasileira que se nega a fazer auto-crítica! vcs elegeram o homem... deram munição para ele.

  • Ruimventura | Quinta-Feira, 11 de Outubro de 2018, 13h26
    5
    1

    Kkkkkk... Agora não adianta chorar!!! Apoiou o golpe sem medir as consequências!!!