17 de Agosto de 2019,

Cultura

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Quinta-Feira, 18 de Julho de 2019, 22h:30 | Atualizado:

Literatura e parcerias entre ALMT e Juína estão fazendo histórias

Quando conversei com estes tecedores – de sonhos e da realidade, chorei. Espero que eu consiga também emocionar vocês com esta história cujos protagonistas são uma gestão municipal centrada na promoção social por meio da Cultura, a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Mato-grossense de Letras (AML), a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) e, costurando este enredo, a Assembleia Social (antiga Sala da Mulher).

O cenário é Juína, município a 730km de Cuiabá, e a história é recente: trata-se de uma parceria firmada em 2019 entre a Assembleia Social e a Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SMEC) para ações de promoção cultural, com clímax na última semana: a participação da poeta periférica e imortal da AML Luciene de Carvalho no IV Sarau das Artes e da Culinária Típica de Juína (12 e 13 de julho) e a visita técnica ao município da diretora da Assembleia Social Daniella Paula Oliveira ontem (17).

“É a primeira vez que vi a Literatura no centro radial das ações culturais!”, exclama Luciene Carvalho, ainda em êxtase pela vivência, da qual voltara recentemente. “Estou aqui só de corpo, minha alma ficou lá”, conta de Cuiabá, com mala ainda por desfazer.

Luciene foi a autora homenageada pelo IV Sarau, cujo tema foi “Mulher Rendeira” e se encantou com o sentido poético: aquela que tece, que trabalha, que produz, que gera renda. “Eu descobri que as minhas letras são rendas, a diferença é que eu bordo com palavras”, avalia a escritora, cuja luta social é o reconhecimento do artista enquanto trabalhador.

O Sarau das Artes é a culminância das várias atividades culturais desenvolvidas no ano pela Casa da Cultura, espaço municipal que abriga a Biblioteca Professora Maria Santana do Nascimento, o Teatro Municipal de Juína, o Departamento de Cultura (com dança, música, etc.), o Instituto de Memórias, entre outros ambientes. Patrícia Itaibele, coordenadora de Fomento à Leitura, conta que todo sarau tem uma temática social, para gerar debates e produções artísticas com determinadas reflexões e permitir mudança social. Este ano, o foco foi o protagonismo da mulher na sociedade, “a libertação feminina”, como conceitua Patrícia. Antes do sarau em si, houve oficinas, rodas de conversa sobre o poder feminino, sobre feminicídio, etc.

Por fim, buscaram uma autora mato-grossense que bem representasse a temática e receberam, como sugestão da Assembleia Social, a Luciene Carvalho. Quando conheceram o trabalho da poeta, se surpreenderam com a atuação social dela (de defesa da população negra, da periferia, do combate à dependência química), com sua produção e com a representatividade da mulher negra nas artes. “E, pessoalmente, descobrimos uma mulher fantástica, gigante”, entre outros adjetivos tecidos por Patrícia.

Duas das propostas do sarau são aproximar o escritor da comunidade, conquistando novos leitores e despertando novos escritores; e incentivar o contato com os literatura de Mato Grosso. “O autor não está longe, ele pode estar aqui conosco”, conta.

Luciene, além de ser homenageada no sarau, pode expor seus livros – com destaque ao mais novo: Dona – e conduziu, juntamente com o Mano Raul, uma roda de conversa sobre combate à dependência química, na segunda-feira (15). A participação da escritora em Juína foi possibilitada pela Assembleia Social.

Mais parcerias – A segunda (de tantas outras) parceria firmada foi o repasse de 80 livros pela Assembleia Social à biblioteca Maria Santana, adquiridos mediante pauta solidária no Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros, promovida pela escola de música Bateras Beat. “A escolha desses livros não foi aleatória, surgiu da discussão com a comunidade que participa da biblioteca”, destaca a diretora Daniella Paula.

Inclusive, um dos pontos mais encantadores do trabalho desenvolvido pela SMEC de Juína é o acolhimento e a mobilização da comunidade em torno da cultura. “Eles, de fato, descobriram a cultura como ferramenta de transformação social. A Cultura não é acessória, é acesso”, aponta Luciene.

Em reunião ontem (17) com a equipe da Casa da Cultura, com o secretário-adjunto de Cultura, Adriano Souza, e com lideranças dos povos Rikbaktsa, Daniella Paula já firmou novas palestras da Luciene Carvalho para o mês de agosto, desta vez, nas aldeias indígenas.

Outras parcerias que envolvem o Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros (também gerido por Dani Paula) e os espaços físicos da ALMT, a exemplo de uma exposição e um fórum sobre fomento à leitura, podem ser concretizadas no futuro.

“É importante ressaltar que eu só consigo fazer tudo isso graças à autonomia, à credibilidade, à confiança e ao fortalecimento que a atual Mesa Diretora dá ao nosso trabalho”, agradece Dani Paula.

Aliás, Daniella foi “sabatinada” na quarta-feira pela roda de conversa ‘Tereré da Juventude’, quando puderam conversar sobre “o impacto da arte na vida das pessoas, na comunidade, no poder de transformação, sobre feminismo, sobre machismo...”, comenta.

Nessa edição do bate-papo semanal, a diretora falou sobre o protagonismo da mulher frente aos setores social e cultural da Assembleia Legislativa. "Encantada! A literatura e a arte são o que impulsiona a minha vida e eu sei a capacidade de transformação humana e social que são capazes. A roda de conversa, os olhares ávidos, os sorrisos gentis e a poesia palpável desses jovens me comoveram profundamente! Ser instrumento de apoio a este projeto tão bonito me permite plenitude e coragem para continuar", agradece Daniella, entusiasmada.

“A Assembleia Social foi essencial para abrilhantarmos nosso sarau e para prospectar, ainda mais, o projeto de cultura que temos aqui”, conta o secretário-adjunto Adriano Souza.

E tem mais – O trabalho cultural de Juína é uma história real e rica em detalhes cinematográficos. Não bastasse ser o primeiro município a priorizar a aquisição de livros de autores mato-grossenses, respeitando a Política Estadual do Livro (Lei estadual nº 9.940/2013), tem elementos como a ocupação de um bosque com arte e, mais especificamente, a Literatura; o redário literário (não é uma delícia escolher um livro e ler na rede?); o projeto de robótica; e a delicada caixoteca – a equipe ganha caixas de feira de um mercado, envolvem crianças e adolescentes na decoração delas, convidando para a expressão através das artes plásticas, usa-as durante o sarau como prateleira para dispor os livros e, ao fim do evento, os pequenos artistas podem levá-las para casa e guardar seus próprios livros e brinquedos.

“Nós queremos ser o exemplo de que é possível promover cultura, mesmo sem muitos recursos. Se um município pequenininho consegue, o Estado e outros municípios também”, convida Adriano Souza.

Ufa! Com tantos detalhes, com tão ricos e participativos personagens, esta história, que não tem final, só poderia ser feliz!

 

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