Quinta-Feira, 10 de Setembro de 2015, 12h31
Irmã de empresário morto em MT diz que saiu do país por medo

G1

Irmã do empresário e radialista Rivelino Jacques Brunini, morto em 2002 supostamente a mando do ex-bicheiro João Arcanjo Ribeiro, já condenado pela morte do dono do jornal Folha do Estado, Raquel Spadoni Jacques Brunini disse se mudou de Cuiabá faz 12 anos por medo. Ela é a primeira de oito testemunhas que devem prestar depoimento nesta quinta-feira (10), no Fórum de Cuiabá, no júri popular de João Arcanjo pela morte de Brunini.

O réu liderava o crime organizado no estado e à época da atuação foi comparado pela imprensa local ao mafioso italiano 'Al Capone'.

"Vivo fora do país por medo do acusado. Não quero me sentir mais acuada e com medo do que vivi nesses últimos anos. Me sinto constrangida, coagida", declarou Raquel, que ajudava o irmão na empresa caça-níquel que ele possuía. No entanto, ela não mencionou o local onde mora atualmente.

Segundo a testemunha, Brunini começou a explorar máquinas caça-níqueis em 2000. "Tínhamos uma casa de passeio no Rio de Janeiro. Rivelino e o sargento Jesus acertaram de trazer máquinas para Mato Grosso. Trouxeram mil máquinas". Raquel se referiu ao sargento da Polícia Militar José Jesus de Freitas, também assassinado em abril de 2002, junto com dois seguranças dele.

Depois de um desentendimento com alguns bicheiros, de acordo com Raquel, o sargento Jesus pegou algumas máquinas e levou para Cáceres, a 220 km de Cuiabá. Mas Brunini continuou atuando em Cuiabá com máquinas adquiridas no Rio de Janeiro. À época, Arcanjo que também trabalhava com caça-níqueis, 'controlava tudo, inclusive os poderes Judiciário e Legislativo', informou a testemunha.

O então bicheiro era tão 'poderoso' que para qualquer pessoa entrar nesse meio era necessário ter autorização dele. Além disso, cobrava uma espécie de comissão. "Para cada máquina instalada, ele cobrava R$ 200 por mês. As máquinas ganhavam um selo", contou. Antes de comprar as máquinas, Rivelino teve uma reunião com Arcanjo e ficou definido que trabalharia em Cuiabá. Outra pessoa também ligada ao grupo atuava em Sinop, a 503 km de Cuiabá, e o sargento Jesus, em Cáceres.

A maioria das máquinas de Rivelino ficava guardada em um galpão localizado na Avenida da Feb, em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá. Naquela época, cobiçadas, as máquinas caça-níqueis, que, cada uma, gerava lucro de R$ 1 mil por semana, começaram a ser furtadas. Os furtos ocorriam entre os próprios bicheiros, conforme a testemunha.

Brunini abriu uma empresa para atuar nesse ramo, mas, como o jogo do bicho não era legalizado, funcionava com liminares com validade de até 40 dias, de acordo com a irmã do empresário.

Por semana, o negócio ilegal do irmão dela rendia R$ 500 a R$ 1 mil. "O pessoal do Rio de Janeiro vinha uma vez por mês para recolher o dinheiro. Não sei a porcentagem que ficava com meu irmão. Nunca neguei que ajudava meu irmão. Ficava com ele quando ele retirava o dinheiro da máquina, mas não sou bicheira e nunca mandei matar ninguém", pontuou.

Para ela, o erro de Brunini foi ter entrado nesse ramo. "Ele foi criminoso porque foi ganancioso. Meu irmão sabia que iria morrer. Ele sabia que todo o crime em Mato Grosso era por causa de João Arcanjo", avaliou.

O esquema ficou fora de controle e havia perseguição. Brunini teve a prisão decretada. Ele tinha dívidas e não conseguia saná-las. "Falamos para ele: 'isso está ficando fora do limite. Tira seu nome da empresa. E ele disse: 'não estou endividado. Eu que trouxe as máquinas, mas aí ele decidiu sair e foi para Poxoréu [cidade a 259 km de Cuiabá]".

Depois de algum tempo, Brunini voltou para Cuiabá e, em nova reunião com Arcanjo, ficou definido que ele colocaria máquinas em Chapada dos Guimarães, a 65 km de Cuiabá. No entanto, o sargento Jesus disponibilizou máquinas para que ele atuasse em Várzea Grande sem que Arcanjo, à época chamado de patrão pelos demais bicheiros, soubesse. "Ele não gostou de ter sido mandado para Chapada e começou usar máquinas escondidas em Várzea Grande. Depois que Jesus morreu, ele continuou usando as máquinas em Várzea Grande".

Antes de morrer, Rivelino Brunini estava perturbado, segundo a testemunha. "Ele começou a falar: 'vão me matar'. Ninguém colocava a mão nele se Arcanjo não liberasse". E, então, nesse clima de tensão e insegurança, Raquel começou a recolher as máquinas a pedido do irmão. Ele andava com três seguranças particulares, sendo que um deles era um ex-policial militar.

Conforme o Ministério Público Estadual (MPE), a exploração da área 1, que compreendia a Baixada Cuiabana, era comandada por Rivelino e sargento Jesus. As demais áreas eram exploradas por outros sócios. Arcanjo recebia mensalmente R$ 200 por máquina.

O crime

Pela morte de Brunini e de Fauze Rachid Jaudy, a Justiça já condenou neste ano o ex-pistoleiro de João Arcanjo, Célio Alves de Souza, e Júlio Bachs Mayada. O crime ocorrido no dia 6 de junho de 2002 teria sido a mando de Arcanjo. Célio Alves foi condenado a 46 anos e 10 meses de prisão e Mayada recebeu sentença de 41 anos de prisão.

Na data do duplo homicídio, as vítimas estavam em uma oficina mecânica localizada na Avenida Historiador Rubens de Mendonça, em Cuiabá, por volta de 15h quando foram surpreendidos por Hércules de Araújo Agostinho, acusado de prestar serviços de pistolagem para Arcanjo.

Em uma motocicleta, Agostinho se aproximou e disparou contra Brunini e contra outros dois que o acompanhavam. Brunini morreu na hora após ser atingido por sete disparos. Era ele o alvo da ação, segundo o MP. No entanto, Rachid Jaudy acabou sendo atingido também e morreu em decorrência do ferimento. Por sua vez, também atingido na ação, Gisleno Fernandes, a terceira vítima, acabou sobrevivendo. Hércules já foi condenado a 45 anos de prisão pelo crime.

Arcanjo, que já foi condenado em 2013 a 19 anos de prisão pela morte do empresário Sávio Brandão, também em 2002.


Fonte: FOLHAMAX
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