19 de Novembro de 2019,

Opinião

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Sexta-Feira, 18 de Outubro de 2019, 13h:10 | Atualizado:

Sérgio Cintra

“Ao meu amigo Edgar”

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Grande parte da Sociedade Líquida não conhece Noel Rosa (1910 – 1937). O “Poeta da  Vila” – com direito a estátua na entrada do bairro Vila Isabel, no Rio de Janeiro – morreu aos vinte e seis anos, em consequência da tuberculose. Em sua breve existência, o boêmio deixou, aproximadamente, 259 canções que retratam do cotidiano amoroso (Dama do Cabaré), passando, claro, pelo desamor (Último Desejo) até a realidade dos mais humildes (João Ninguém).    Apesar de ter iniciado o curso de medicina, Noel jamais foi vacinado contra o Mycobacterium tuberculosis;  aliás, no Brasil, a vacina contra o bacilo de Koch só foi disponibilizada em 1927. Assim como as atitudes irresponsáveis do boêmio agnata carioca com a própria saúde, atualmente cresce o número de pessoas contra qualquer tipo de imunização, fazendo com  que ressurjam doenças consideradas erradicadas.

Por um lado, as notícias falsas (Fake News) contra a vacinação foram potencializadas pelas redes sociais, aumentando consideravelmente o movimento antivacinas. Ancourados na ignorância e na credulidade de parcela significativa da população, os adeptos da não- imunização propagam “verdades”como: “vacina contra a gripe causa um buraco no braço” ou “vacina causa autismo”. Óbvio que tais mentiras não existem apenas na contemporaneidade; basta rever a história recente, por exemplo, a Revolta da Vacina (1904) que terminou por deflagrar manisfestações e confrontos na Cidade Maravilhosa, no início do século passado, por conta, entre outros fatores socioeconômicos, da campanha de vacinação obrigatória contra varíola.   Não obstante o Governo tenha sido vitorioso nos confrontos com o povo, a campanha de imunização compulsória foi suspensa. Consequência: epidemia de varíola em 1908.      

Por outro, o desconhecimento das pessoas sobre doenças como sarampo, rubéola, difteria e poliomielite – até então consideradas erradicadas na Terra Brasilis – faz com que haja um aumento substancial no número de não vacinados, tendo com consequência o reaparecimento dessas enfermidades que tanto afligiram os brasileiros em tempos recentes. A Organização Mundial de Saúde (OMS)  alerta para o perigo do retorno dessas moléstias, inclusive, infelizmente, o sarampo, erradicado em 2016, está de volta aqui. Isso deveria servir como alerta tanto para as autoridades sanitárias quanto para a sociedade; dessa maneira, evitar-se-ia o renascimento desses flagelos, que, normalmente, açoitam sobremaneira os menos favorecidos. 

A esses dois fatores, soma-se um terceiro, não menos importante: o fatalismo que assola a cordata nação tupiniquim. O popular “O que tem que ser, será” (sic) contribui para intensificar o quadro dramático do florescimento dessas pragas na saúde brasileira. O esquálido e raquítico Noel, “Em meu amigo Edgar”, também brincou com a tísica (tuberculose) que o mataria: “Creio que fiz muito mal/Em desprezar o cigarro:/Pois não há material/Pra meu exame de escarro!” Assim, é preciso que o 17 de outubro seja feriado nacional e todos debatam e vacinem-se, porque, como vaticina a sabença popular: “Prevenir é melhor que remediar”.

Sérgio Cintra é professor de redação e de linguagens em Cuiabá.

sergiocintraprof@gmail.com

 

 

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Comentários (1)

  • Nenê Bocaiuva | Sexta-Feira, 18 de Outubro de 2019, 15h42
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    Apesar da importância do alerta sobre o retorno da tuberculose, ao final, como um reles barnabé, pede mais um feriado. Como o feriado ajudaria no combate ao mal?

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