12 de Agosto de 2020,

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Domingo, 05 de Julho de 2020, 17h:26 | Atualizado:

Luiz Henrique Lima

Hamburger de carne humana

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Bem, primeiramente confesso que não sou vegano ou vegetariano. Ao contrário, seguindo a tradição sulista da família, aprecio um bom churrasco ou um arroz de carreteiro. Da mesma forma, não recuso um bom hamburguer.

Na realidade, até gostaria de ser, pelo menos, semivegetariano, evitando o consumo de carnes vermelhas. Pelo que já li, isso teria um efeito positivo, tanto para a saúde física como para a espiritual. Mas a realidade é que ainda não consigo resistir a um bom bife, um picadinho com batatas, um quibe, uma empada ou um pastel.

Recentemente, fui atraído para conhecer uma famosa cadeia de restaurantes que apregoava oferecer “o melhor hamburguer do mundo”. Antes da pandemia, estive duas vezes numa de suas filiais em um shopping-center de nossa capital. Por ironia, na primeira vez, pedi um prato de frango com salada. Na outra, decidi provar o tal hamburguer. Saboroso, mas nada excepcional e relativamente caro. Já degustei outros melhores em food-trucks e em redes concorrentes.

Recordei essa experiência ao assistir semanas atrás um vídeo profusamente divulgado na internet e nas redes sociais no qual o proprietário dessa cadeia de restaurantes abandona sua expertise culinária e incorpora o papel de formulador de políticas públicas em situações de calamidade pública e emergência sanitária.

Desnecessário dizer que assistir a sua fala provoca indigestão e cólicas. O referido mestre-cuca exagerou nos temperos, mostrou ser cru em economia e gelado em solidariedade humana. Confundiu ingredientes e estatísticas e passou muito do ponto do bom-senso. O produto resultante é um discurso intragável, hipócrita e cruel. Nele, expõe as vísceras de uma mentalidade gananciosa e insensível ao sofrimento de milhares de famílias de brasileiros vítimas fatais da covid-19.

Isoladamente, o vídeo e o canastrão não têm qualquer relevância e não mereceriam comentários. Sucede, porém, que a mensagem que transmitiu não é exclusiva de um único indivíduo. Na realidade, é representativa de uma parcela da elite empresarial brasileira que não mediu esforços para boicotar as medidas de isolamento social e as recomendações das autoridades médicas e científicas. Infelizmente, contaram com poderosos aliados em altos escalões, que não se constrangeram em multiplicar maus exemplos de desobediência cívica, até mesmo na recusa ao uso de máscaras de proteção individual. Em sincronia com o vírus, robôs em redes sociais disseminaram fake news de toda a espécie, confundindo a população, subestimando a gravidade da doença, fantasiando soluções milagrosas e estimulando atitudes tresloucadas de agressões a enfermeiros em Brasília, buzinaços em frente a hospitais em São Paulo, profanação de cruzes em homenagem às vítimas no Rio de Janeiro e até mesmo a invasão de UTIs.

Numa sociedade marcada por profundas desigualdades, o vídeo traduz a indiferença de muitos dos graúdos com a vida dos mais frágeis. É a ideologia do “E daí? Vai morrer muita gente mesmo.”

No futuro, quando se estudar com cuidado a história da inconcebível sucessão e combinação de equívocos deliberados, omissões calculadas e irresponsabilidades  criminosas que conduziram o nosso país à tragédia de um dos piores resultados mundiais no enfrentamento á pandemia de 2020, certamente esse vídeo do hamburguerista será selecionado como um dos “piores momentos” em várias categorias.

Por enquanto, não deixarei de comer os meus sanduíches carnívoros. Mas não me convidem para ir ao estabelecimento desse senhor. Depois desse vídeo e de tudo o que ele representou, para mim os seus hamburgueres têm sabor de carne humana.

Luiz Henrique Lima é conselheiro substituto do Tribunal de Contas do Estado

 



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Comentários (4)

  • Rodrigo | Segunda-Feira, 06 de Julho de 2020, 17h33
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    Caro “Paco”, você falou demais e não disse nada com seu “parco” raciocínio. Quero ver qual parte do “Estado nada produz” você conseguirá me refutar, pois que eu saiba é por meio de tributação que se chega ao recurso público e consequentemente ao “bem estar”. Ao menos que você tenha uma árvore em casa e está nos poupando de seus recursos infinitos. Não existe dinheiro público, existe dinheiro dos pagadores de impostos e uns, são mentecaptos como você, outros não. Seu discurso nada mais é do que demagogia, pois a verdadeira “elite” é a própria classe do funcionarismo público.

  • Só observo | Segunda-Feira, 06 de Julho de 2020, 08h56
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    Ler uma análise de quem tem um contracheque mais gordo que a capa de gordura da picanha somado ao tal do teletrabalho para o funcionalismo público, que na verdade trata-se em geral de mais uma engambelação é uma ótima opção falar o tal do "fique em casa"... Agora pra quem não tem nem para comprar o mínimo fica um pouco mais complicado... Na vida tudo precisa de equilíbrio e sabedoria, tudo o que nós não estamos tendo no MT e Brasil. Somatório de governantes incompetentes e corruPTos com uma população alienada, desprovida de caráter e de respeito ao próximo dá isso aí... 2,8% da população mundial e 13% (subindo) dos casos...

  • Paco | Segunda-Feira, 06 de Julho de 2020, 08h55
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    Excelente reflexão ! Grande parte da elite brasileira acredita que faz um favor ao empregar pessoas e fez ouvidos moucos à pandemia, culminando na tragédia que vivemos hoje. O Rodrigo aí de baixo diz que o Estado nada produz. Frase mais tosca que existe. O Estado tem uma função melhor, a de buscar promover o bem estar social, distribuindo renda. Nenhuma necessidade empresarial vai justificar um genocídio. Vocês vão passar vergonha na história. PS: não sou funcionário público

  • Rodrigo | Domingo, 05 de Julho de 2020, 21h52
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    Pro senhor deve ser bem mais tranquilo atacar a mentalidade “assassina” da iniciativa privada, não é mesmo senhor funcionário público? Com o salário que o senhor recebe confortavelmente no seu âmbito familiar, independentemente de produzir ou não, não restam dúvidas que pode escolher qualquer tipo de hambúrguer em qualquer lugar do mundo. Pela especificidade de sua função pública, também deve saber que o Estado nada produz e provavelmente se não fosse a “ganância” de empresários e empregados, até seu belo “soldo” seria afetado, ou estou errado? Aliás, sua lógica não parece muito inteligente, pois, deve ser do conhecimento do senhor o fato de que o Junior Durski emprega 8 mil pessoas (diferente do senhor e do seu “órgão”), de modo que, se o senhor e o bando de alienados boicotam, o empresário muda de país e de ramo, restando 8 mil desempregados (sem contar os colaboradores diretos e indiretos), aos quais certamente o senhor não oferecerá emprego, não é mesmo? Portanto, acho que ao invés dessa verborragia fútil, hipocrita e enfadonha, o senhor poderia dedicar-se somente ao que lhe cabe, fiscalizar a melhor aplicação do dinheiro “público” (principalmente diante de tantos casos de desvios e superfaturamento durante a pandemia), ao invés de bancar o comentarista/blogueiro, pois não lhe cai bem.

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