03 de Agosto de 2020,

Opinião

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Terça-Feira, 06 de Fevereiro de 2018, 10h:23 | Atualizado:

Eduardo Mahon

Leite derramado

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A postura mais fácil que um governante pode adotar é culpar a administração anterior pela frustração das promessas eleitorais. Em Mato Grosso, particularmente, a herança maldita de um para o outro governo é evidente. Da mesma forma que o Rio de Janeiro, o governo peemedebista armou uma bomba para quem quer que se sentasse na cadeira: incremento salarial às carreiras, inchaço da máquina pública, estrangulamento da arrecadação e o eterno vício de compartilhar receita com os demais poderes por falta de um orçamento realista. Tudo isso o governador Pedro Taques sabia antes mesmo de assumir, assim como sabia antecipadamente que as obras estavam superfaturadas, que o consórcio do Veículo Leve sobre Trilhos não iria prosseguir o trabalho, que o Estado meteu-se numa sinuca fiscal difícil e, por fim, reformas profundas deveriam ser realizadas desde o primeiro dia. Como guerra avisada não mata soldado, quem predispôs-se a governar tinha conhecimento das vicissitudes administrativas a que estava sujeito. Diz a máxima popular: quem casa com a viúva, herda os filhos sem reclamar. No caso de Taques, o Estado foi conduzido com o olho fixado no retrovisor, sem que houvesse nenhuma medida concreta de desfazimento das situações jurídicas urdidas no governo anterior.

O governo Taques tem, até hoje, mais de 80% de apoio legislativo, o que daria folga suficiente para impor – desde o início – uma agenda reformadora positiva: 1) repasse imediato dos inativos ao respectivo poder; 2) desvinculação de repasses para os poderes da receita apurada; 3) rescisão imediata com as empreiteiras das obras superfaturadas; 4) amplo debate sobre a taxação do agronegócio; 5) revisão imediata das isenções fiscais; 6) corte radical na máquina pública; 7) judicialização de alguns reajustes classistas sem o devido estudo de impacto financeiro. Tudo isso foi diagnosticado pela equipe de transição. Com 57.25% dos votos válidos, já em primeiro turno, elegeu-se Pedro Taques, após a tragédia de corrupção que solapou Mato Grosso. Tinha a imagem austera e dura, imprescindível para aquele momento de transição crítica. Frente às prisões em cascata contra gestores passados, ganhou legitimidade e justificativas para implementar as reformas que o Estado carecia. No entanto, não foi isso que aconteceu. Mantendo a linha sisuda, Taques dialogou pouco com as instituições e dialogou mal. Foi cedendo a pauta de reformas, perdido na gestão caótica de um secretariado inexperiente e igualmente desconfiado de tudo e de todos. Os servidores que propunham uma agenda positiva de incremento de arrecadação foram tomados como bandidos, assim como bandidos eram todos aqueles que não apoiavam o atual governador.

Instalou-se o medo da crítica. Coincidentemente, o restolho de oposição teve mais problemas judiciais para se preocupar na própria cozinha do que para manter o enfrentamento. O processo contra Silval Barbosa que redundou nos acordos de colaboração premiada com respectiva confissão dos picaretas que compunham uma quadrilha, em nada repercutiu de prático para o atual governo. Estrategicamente, perdemos a maior e melhor oportunidade de entabular uma discussão séria sobre o aumento da arrecadação, a divisão republicana e a contenção de despesas públicas. A máquina continuou a girar da mesma forma, com personagens diferentes. No entanto, os fundamentos administrativos que gerariam a atual crise não foram tocados: o Estado – que se arvorava tão bom de briga – não deu combate aos aumentos salariais, às empreiteiras, ao agronegócio, a nada que pudesse ameaçar fundamentalmente a composição de forças em Mato Grosso. O que vemos? Uma aliança entre antigos caciques, um governador arrostado pelo endividamento, o funcionalismo frustrado e raivoso, a briga jurídica extemporânea paralisando a administração pública no que diz respeito à mobilidade urbana.

Há alternativa? Parece que não. Mas, em política, sempre há alternativas. Os homens não são pedras que se possam colecionar. O rompimento é tão mais factível quanto menor a força do governante. Os profissionais pressentem o navio fazendo água e não conheço um único político disposto a se afogar com o comandante no navio que vai a pique. Uma outra eleição poderia garantir força necessária para implementar a agenda de reformas impopulares? Não sabemos. Não é possível prever se a mesma pessoa pode mudar tanto de comportamento que passe a enxergar o que, até hoje, não viu. Pessoalmente, nunca vi tamanha resistência, crítica, rancor contra um governante. Ao se realizar uma breve retrospectiva, percebemos quantos aliados importantes tornaram-se críticos vorazes, parceiros insossos ou aliados dúbios. Um sentimento de fracasso toma conta das rodas de discussão, o que fermenta outras pretensões, outros nomes, outros projetos. Ineficaz chorar o leite derramado. Continuamos na torcida. Na torcida por Mato Grosso.

Eduardo Mahon é advogado em Mato Grosso

 

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Comentários (9)

  • Flavio | Quarta-Feira, 07 de Fevereiro de 2018, 08h12
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    Bom esse Eduardo ate a pouco estava coladinho no Taques, depois que brigou passou a querer mostrar o outro lado do Taques, acho que os dois se merecem...........

  • Said Joseph | Terça-Feira, 06 de Fevereiro de 2018, 21h54
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    O único político disposto a morrer afogado com Pedro Taques é José Eduardo Botelho, Presidente da AL - MT.

  • Carlos Nunes | Terça-Feira, 06 de Fevereiro de 2018, 18h17
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    Ih! Vou comentar essa mesma matéria de novo, pois no mídianews censurou...dizia eu: sobre os dois Taques, o antigo, Procurador da República do MPF, e o novo Governador. O antigo investigaria OS GRAMPOS, colocaria o dedo na ferida das PEDALADAS do FUNDEB, do FETHAB. O novo dificultou a investigação dos Grampos, e tem a maioria pra intervir na CPI dos Fundos. Eu, preferia o antigo. O novo não deu certo...teve um Staff fraquinho, fraquinho, no Planejamento, e colocou as Finanças Públicas de MT no buraco. A vaca das Finanças foi parar no meio do brejo atolada até o pescoço. Mato Grosso tá é falido. Devia ter tomado as decisões de saneamento das Finanças, no primeiro ano do mandato...agora não dá mais, agora já deu Game Over, final de jogo. Afinal de contas dinheiro não dá em árvores, nem cai do céu, nem tem passe da mágica pra fazer dinheiro aparecer.

  • Cuiabanoantenado | Terça-Feira, 06 de Fevereiro de 2018, 16h32
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    Texto PERFEITO Eduardo,direto ao PONTO sem meias palavras,parabéns!

  • alexandre | Terça-Feira, 06 de Fevereiro de 2018, 11h55
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    inchaço na maquina ? quem chamou 5000 pms e PJC ? vai questionar a lei de carreira da CGE ? ou só dos pobrinhos ...

  • Tomasturnando da Silva | Terça-Feira, 06 de Fevereiro de 2018, 11h18
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    No primeiro parágrafo parei de ler o texto. Eduardo se contradiz a todo momento, não me surpreende mais.

  • alexandre | Terça-Feira, 06 de Fevereiro de 2018, 11h12
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    não há coragem para taxar o agronegócio, não há coragem para par fazer os Poderes pagarem suas super aposentadorias, não há coragem para reduzir em 40% os duodecimos super estimados e desvincular da receita, tem orgão com 500 milhoes em caixa , mendingando 250 milhoes é o cumulo do absurdo, parece o Tio Patinhas e o mackmoney....o corte é só no executivo.

  • Observador | Terça-Feira, 06 de Fevereiro de 2018, 11h05
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    Literalmente, esse tal de Eduardo não deve ser levado a sério. Até pouco tempo morria de amores pelo Pedro Taques, Wilson Santos, chegando ao cúmulo de filiar ao PSDB, fazia jantares pomposos para a tucanada, regrado a vinho da “melhor safra” e agora vem como essa conversinha fiada? É muita falta do que fazer!!!

  • Um homem comum | Terça-Feira, 06 de Fevereiro de 2018, 10h47
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    Os servidores publicos fizeram a parte que lhes cabia. O agronegocio se nega a fazer a parte que lhe cabe. Por que nao taxar esse segmento que se beneficia do nosso estado mas se recusa a pagar impostos?? Só porque gera emprego???? Mas outros que geram emprego tbem pagam seus impostos. Chega de sanguessugas em MT.

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