19 de Agosto de 2019,

Opinião

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Sábado, 20 de Julho de 2019, 08h:00 | Atualizado:

Auremácio Carvalho

O país dos obesos

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A Princesa Isabel, regente do Império, em 13 de maio de 1888, com uma canetada, aboliu a escravidão no Brasil. O Presidente Bolsonaro, que a cada dia nos surpreende com uma declaração bombástica e inesperada, com outra caneta, aboliu a fome no Brasil: “falar que se passa fome no Brasil, é uma grande mentira. Passa-se mal, não come bem. Aí, eu concordo. Agora, passar fome, não”. 

E, parodiou Pero Vaz de Caminha, no Brasil, “em se plantando, tudo dá”, quando comunicou ao Rei a descoberta do Brasil e, aproveitou para pedir emprego público para o genro. Ambos, a princesa e o presidente, cometeram um pequeno erro de perspectiva política e sociológica: os fatos abolidos, não desapareceram, num passe de mágica. Continuam presentes no Brasil: na fome, no abandono dos ex-escravos, sem qualquer assistência ou indenização, sem trabalho ou incentivo à qualificação, velhos e doentes mendigando nas ruas, que deram origem as atuais favelas, cortiços, palafitas que conhecemos, com suas sub-vidas e violência e, no decreto bolsonariano, nos milhões abaixo da linha da pobreza e, no desperdício de dinheiro público- crime de responsabilidade- de manter um tal programa social apelidado de Bolsa Família que, agora descobrimos, serve para alimentas pessoas obesas. 

A FAO- Organização das Nacões Unidas para a Agricultura e Alimentação, informa haver no Brasil, 2,5% da população em grave situação alimentar. Ou seja, 5,2 milhões de brasileiros privados de uma alimentação diária decente (dados de 2017). Portanto, uma mentira. Quem sabe, o bem alimentado e futuro Embaixador nos EUA, não possa contribuir para esclarecer essa fake news da ONU, já que é expert em fritar hamburguês. Aliás, credencial e habilidade essencial para o cargo. 

Outra grande mentira é divulgada pelos pesquisadores e órgãos oficiais,como o IBGE, que afirmam, descaradamente que “a fome provém da falta de alimentos que atinge um número elevado de pessoas no Brasil e no mundo. Apesar dos grandes avanços econômicos, sociais, tecnológicos, a falta de comida para milhares de pessoas no Brasil continua. Esse processo é resultado da desigualdade de renda, a falta de dinheiro faz com que cerca de 32 milhões de pessoas passem fome, mais 65 milhões de pessoas que não ingerem a quantidade mínima diária de calorias, ou seja, se alimentam de forma precária.” É uma pena que o brasileiro não aprendeu ainda a comer soja. 

Acrescento mais uma fakenews: “No mundo cerca de 100 milhões de pessoas estão sem teto; existem 1 bilhão de analfabetos; 1,1 bilhão de pessoas vivem na pobreza, destas, 630 milhões são extremamente pobres, com renda per capta anual bem menor que 200 dólares; 1,5 bilhão de pessoas sem água potável; 1 bilhão de pessoas passando fome; 150 milhões de crianças subnutridas com menos de 5 anos (uma para cada três no mundo); 12,9 milhões de crianças morrem a cada ano antes dos seus 5 anos de vida.”(FAO).  

Os estudiosos, mentirosamente, apontam as causas: • a instabilidade política; • ineficácia e má administração dos recursos naturais; • os conflitos civis; • o difícil acesso aos meios de produção pelos trabalhadores rurais, pelos sem-terras ou pela população em geral; o deficiente planejamento agrícola; a injusta e antidemocrática estrutura fundiária brasileira, marcada pela concentração da propriedade das terras nas mãos de poucos; a instabilidade política; a ineficácia e má administração dos recursos naturais; conflitos civis; o difícil acesso aos meios de produção pelos trabalhadores rurais, pelos sem-terras ou pela população em geral; o deficiente planejamento agrícola. 

Naturalmente, fake news ou invenção da esquerda. Em 1987, no Brasil, quase 40% da população (50 milhões de pessoas) vivia em extrema pobreza. Nos dias de hoje, um terço da população é mal nutrido, 9% das crianças morrem antes de completar um ano de vida e 37% do total são trabalhadores rurais sem terras. 

O que temos nós, os obesos, com isso? Nada, pois como diz um estudioso, “é uma tragédia a conta-gotas, dispersa, silenciosa, escondida nos rincões e nas periferias. Tão escondida que o Brasil que come não enxerga o Brasil faminto e aí a fome vira só número, estatística, como se o número não trouxesse junto com ele, dramas, histórias, nomes. Na inversão do ciclo da vida, proeza é criança viva, bebê recém enterrado, um acontecimento banal. 

No Brasil, a cada cinco minutos, morre uma criança. A maioria de doenças da fome. Cerca de 280 a 290 por dia. É o que corresponderia, de acordo com o Unicef, a dois Boeings 737 de crianças mortas por dia.” Os programas sociais que instituídos nos últimos anos, visavam amenizar a problemática da fome e da miséria. O “Fome Zero”, menina dos olhos do governo Lula, seguiu o mesmo rumo. Todavia, amenizar não é acabar com o fenômeno. 

O povo brasileiro quer e exige uma verdadeira guerra contra a fome e a miséria, que passa, necessariamente, por mudanças estruturais e profundas na organização social e na mentalidade da elite nacional. Os dois maiores descobrimentos do século XX terão sido a fome e a bomba atômica, no dizer de Josué de Castro (geógrafo de fama mundial), que denunciou a situação de fome, apontou causas econômicas e efeitos desse fenômeno. 

Afirmou que, no Brasil, a fome é endêmica: alimentação abaixo do necessário por falta de alimentos vitais, embora os famintos vivam em ambientes com abundância de tais alimentos. Assim, não sendo a fome no Brasil um problema epidêmico, sua natureza é política e econômica, ou seja, não provém de calamidades ou de um regime de escassez, mas, sim, da falta de meios materiais (emprego ou trabalho) e recursos da população mais pobre para comprar alimentos.

 “No Brasil haverá Segurança Alimentar quando todos os brasileiros tiverem, permanentemente, acesso em quantidade e qualidade aos alimentos requeridos e às condições de vida e de saúde necessárias para a saudável reprodução do organismo humano e para uma existência digna. A Segurança Alimentar há de ser, então, um objetivo nacional básico e estratégico. Deve permear e articular, horizontal e verticalmente, todas as políticas e ações das áreas econômica e social de todos os níveis de Governo e ser perseguida por toda a sociedade, comprometendo todos os segmentos sociais, seja em parceria com os distintos níveis de Governo, ou em iniciativas cidadãs. (CONSEA, 1995: 88-9). Em suma, ou o  Presidente Bolsonaro ainda não começou a governar e vive, diariamente, dos discursos populistas para seus apoiadores e declarações surreais, ou estamos diante de um fato mais grave: a total inapetência para o cargo como ,aliás, já confessou. De canetada em canetada, ele vai chegar a 2022?        

(*) Auremácio Carvalho-Advogado. 

 

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