08 de Agosto de 2020,

Opinião

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Sexta-Feira, 02 de Fevereiro de 2018, 08h:10 | Atualizado:

Eustáquio Rodrigues

Os novos mendigos

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Em cada época topamos com novidades. Às vezes agradáveis, outras desagradáveis. Às vezes hilárias, outras ridículas. Já tivemos a Nova República, a Nova Era, o Estado Novo, os Novos Ricos e por aí vai. A novidade agora são os Novos Mendigos. Eles estão em qualquer semáforo, esquina ou palácio bem perto de você. Pedindo dinheiro na maior cara de pau e com as desculpas mais esfarrapadas do mundo. Esse texto é sobre eles. 

O mendigo esportista - sempre são jovens e adolescentes pedindo dinheiro para comprarem passagens para participar de algum evento esportivo, seja Campeonato Estadual de Bola de Gude, Torneio de Bocha, Olimpíadas de Bafo e até amistoso de futsal de perneta. 

O mendigo músico - de várias idades. Estão nas calçadas de bares pedindo dinheiro para gravar um DVD, ou para participar de um festival musical Deus sabe onde, ou para comprar um instrumento. Com o advento do “Youtube”, essa espécie está em extinção

O mendigo malabarista - estão sempre engolindo fogo, jogando malabares, pinos e bolas para o ar. Depois da "performance" saem entre os carros pedindo dinheiro. Será que eles realmente acreditam que o seu número vale mesmo nosso dinheiro? Seria mais produtivo se todos eles se juntassem, formassem um circo e começassem a trabalhar e ganhar dinheiro de verdade.

Os mendigos portadores de falsas necessidades especiais - um dos mais numerosos. Esses confundem deficiência com higiene. Por que estão sempre sujos? Sempre brigam por um bom lugar numa esquina, farol ou ponto de ônibus. E estão sempre em busca do "Oscar" de melhor atuação também.

O mendigo estudante - são estudantes, quase sempre pintados, que vivem pedindo dinheiro nas ruas (uniformizados ou não) alegando que estão passando trote - e precisam juntar dinheiro para comprar cachaça para os veteranos - ou que precisam de verba para ir em um congresso estudantil. Seja qual for o motivo, não desperdice seus centavos com eles.

O mendigo criança-esperança - são pessoas bem vestidas (ou não), articuladas (ou não), que vêm pedir seu dinheiro em nome de uma instituição de caridade ou causa beneficente. Infelizmente são bem articulados somente para pedir dinheiro na rua, pois não conseguem redigir um ofício solicitando verbas para o poder público ou ir até a iniciativa privada, cujas doações podem ser abatidas do imposto de renda (difícil vai ser encontrar uma empresa que não sonegue o IRPJ).

Os mendigos togados - são aqueles que não conseguem viver com apenas 30 mil reais por mês e estão nas esquinas do poder legislativo e executivo lutando por melhores condições de vida e, claro, aumento de salário ou um auxílio moradia (mesmo tendo que usar a lei e jogar a ética no lixo), ou um auxílio paletó ou um auxílio-qualquer coisa. Afinal quanto você acha que custa manter 2 férias por ano, mais 1 recesso, as confusões ilícitas dos filhos, mais motorista, copeiro, lavadeira, jardineiro, cozinheira e, em casos mais velados, concubina (o)? É muito caro! É preciso estar sempre pedindo (por mais) dinheiro.

O mendigo ministro – são aqueles ministros do poder executivo ou do poder judiciário que vivem pedindo um ministério (mesmo que não entenda nada do assunto ou que sua reputação afronte a finalidade da pasta) ou uma mordomia (nesse caso, quando não consegue mais viajar em voo comercial com dinheiro público sem ser vaiado ou escorraçado, usa esse mesmo dinheiro em um voo particular – depois não digam que ele não tentou economizar). Brigam com unhas e dentes por esse direito, mesmo achando que ninguém tem o direito de pedir nada.

Em todo caso, essa nova mendicância deve ser combatida com indiferença, indignação e às vezes com justiça. Sabemos que o Brasil é um país de corruptos, ladrões e mal-educados (com as exceções, claro), e pouco a pouco esse tipo acima de mendicância está sendo institucionalizada. Já está virando hábito pedir dinheiro por qualquer causa, por mais ridícula que seja. Já é comum pedir benesses ao poder público na maior cara-de-pau. Lembram-se apenas da legalidade, mas se esquecem da moral e da ética. Temos que ter a coragem de, ao invés de darmos moedinhas e jetons, colocarmos nas mãos desses mendigos um bilhete com a simples frase: "tome vergonha na cara". 

EUSTÁQUIO RODRIGUES - SERVIDOR PÚBLICO



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Comentários (5)

  • Andre wilker | Domingo, 04 de Fevereiro de 2018, 16h24
    1
    0

    Essa foi boa Roberto ruas

  • Jarina | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 14h12
    2
    0

    Que texto brilhante. Há tempos não lia algo tão bom em um jornal.

  • ROBERTO RUAS | Sexta-Feira, 02 de Fevereiro de 2018, 23h29
    3
    0

    Bom texto e boa reflexão, mas eu incluiria mais uma categoria de mendigos ; os mendigos funcionários públicos , que estão sempre reclamando e queixando-se do governo que quer " que eles trabalhem 8 horas por dia" , ou que mantenham os famigerados " pontos facultativos" entre outras benesses que a população repudia.

  • Citizenship | Sexta-Feira, 02 de Fevereiro de 2018, 12h22
    2
    1

    Por que você se esqueceu do mendigo empresário querendo incentivos de isenção fiscal ou refinanciamento de dívidas tributárias sem pagamento de juros e multas?

  • Meris de SantAna | Sexta-Feira, 02 de Fevereiro de 2018, 08h37
    4
    0

    É .E ainda vem uma Rede de Entretenimento fazendo enquetes sobre o Brasil que eu quero, sendo mostrado lugares lindos das diversas regiões. Que país é esse onde até os menos favorecidos se sentem no direito de "receber as benesses" de um povo cada vez mais pobres de espírito.

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