04 de Agosto de 2020,

Opinião

A | A

Quinta-Feira, 30 de Julho de 2020, 14h:31 | Atualizado:

DIEGO FREDERICI

Rodivaldo Ribeiro: o cérebro na velocidade da luz

diego-frederici.jpg

 

Escrever é o ofício dos jornalistas. Num país de desigualdades gritantes como o Brasil, se expressar por meio de palavras, sentenças e frases escritas pode não ser uma tarefa fácil para boa parte das pessoas em razão do déficit educacional histórico da população brasileira.

Para nós jornalistas, entretanto, escrever acaba tornando-se uma tarefa “automática”, como modo de sobrevivência num setor econômico que busca qualidade, rapidez e alcance das informações. Apesar da prática cotidiana, a dificuldade na escrita também é presente para nós profissionais da área, sobretudo diante de eventos insólitos, como a morte de um amigo.

Com o perdão da introdução prolixa – pouco objetiva, em detrimento do que se convenciona como “texto jornalístico” -, não consigo pensar numa forma melhor de homenagear meu amigo, Rodivaldo Ribeiro, que nos deixou na manhã desta quinta-feira, 30 de julho de 2020, após um infarto, em Cuiabá. Ele próprio, Rodivaldo, um tanto prolixo também, mas sempre com a visão aguçada das contradições deste mundo.

Como ele próprio contava nos vários happy hours após o expediente na redação jornalística, Rodivaldo foi um jornalista veterano em Mato Grosso, passou pelos principais veículos de comunicação do Estado, deixando sua marca por onde passasse. Sua disposição ao embate frente às injustiças, não raro de forma contundente, só não era maior do que a generosidade oferecida de boa-fé àqueles que não agiam de má fé.

Amante das artes e da cultura, Rodivaldo Ribeiro também era escritor, inclusive com um de seus livros - Essa armadilha, o corpo (Chiado Books, 2018) -, lançado na Europa e em países de língua portuguesa. Expressar-se por meio da literatura e do jornalismo, porém, não era o bastante para ele, que também possuía uma banda de rock, elevando seus protestos às notas abafadas ou estridentes dos instrumentos musicais, numa voz que retumbava como o ruído de um trovão na calada da noite.

De vasto conhecimento político, sociológico e histórico, Rodivaldo Ribeiro tinha ainda como marca suas conversas, que transformavam-se em “mini discursos”. Conseguir interrompê-lo nestes momentos só não era mais difícil do que rebater argumentos invariavelmente sólidos nos mais diversos assuntos possíveis. Uma verdadeira enciclopédia ambulante!

A sociedade de Mato Grosso fica um pouco menos sagaz, agora que não pode contar com o vasto repertório de referências de Rodivaldo Ribeiro, sedimentado na leitura de muitos livros, de diversas áreas do conhecimento. O cérebro que funcionava na “velocidade da luz”, que emendava uma fala à outra, sempre adicionando mais informações a temas sob debate, deixa seus amigos mais tristes num 2020 já caótico.

Uma luz de conhecimento que fará falta nestes tempos sombrios.

Diego Frederici é jornalista em Cuiabá e repórter do site FOLHAMAX

 



Postar um novo comentário

Comentários (1)

  • Lidiana Cuiabano | Quinta-Feira, 30 de Julho de 2020, 15h04
    4
    0

    Uma GRANDE perda para o jornalismo de Mato Grosso. Excelente profissional!

INFORMES PUBLICITÁRIOS

MAIS VÍDEOS