22 de Outubro de 2019,

Opinião

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Sexta-Feira, 13 de Setembro de 2019, 15h:22 | Atualizado:

Sérgio Cintra

“Umnhý tóne”

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Naquela noite de setembro, quando da faísca que principiou o caos vermelho e ardente, quando 20 milhões de borboletas, dinossauros, meteoritos, inclusive o de Bendegó, índios, conchas, múmias egípcias, baleias, répteis voadores, afrescos de Pompéia, insetos ainda invisíveis, Maxakalisaurus topai, a múmia do Atacama, o Trono de Daomé, Botocudos, a dama de Sha-Amum-Em-Su, o Santanaraptor, Oxalaia quilombensis, Luzia e as flores que ameaçavam florescer, quando saiu o último visitante e as portas se fecharam, quando parecia ser apenas uma noite no Museu Nacional, as chamas com suas línguas dançantes precipitaram o insano e a coreografia horrenda começou...

No paço imperial ecoaram gritos de pavor: borboletas, com as asas em chamas, eram tragadas pelo fogo; pterossauros voavam desesperados e sucumbiam em labaredas atrozes; múmias forçavam, sufocadas pela fumaça, as portas; flores cretáceas eram devoradas pelo archote implacável; os Botocudos das Minas Gerais, perplexos, alertavam “- tchompék”, “- tchompék”, “- tchompék”; a Dama Egípcia, impassível em seu sarcófago flamejante, clama por Amun - o escondido - para que apareça e debele, com seu sopro, o fogaréu cingindo o palácio; os afrescos de Pompéia, em brasas, evocavam, inutilmente, a deusa Ísis, que os livrara da fúria do Vesúvio, para que os salvassem das linguetas de fogo que consumiam rapidamente tudo, tudo...

Assistindo, petrificados, a um dos nove círculos do “Inferno”,na Divina Comédia de Dante Aligheri, o sexto, estão D. João VI, D. Pedro I, a imperatriz Leopoldina, D. Pedro II, todos viveram e conviveram com aquelas paredes, agora, flamadas. Um túmulo gigantesco; antes, uma fornalha, envolve o prédio neoclássico de 200 anos da Quinta da Boa Vista. Dentre eles, D. Pedro II é o mais perplexo: não acha crível, no século XXI, que hidrantes não funcionem, que seguranças nada vejam, que brigadas de incêndio inexistam, que milhares de anos se esvaiam em fumaça e combustão. Difícil para um homem tão culto ver antropologia, paleontologia, botânica, arqueologia e entomologia e geologia virando escombros, restos, cinzas e nada...

Sozinha, cansada, parecendo sentir a idade de 12 mil anos, Luzia, ao contemplar aquele espetáculo pirotécnico, sente saudades da Lapa Vermelha, nas Gerais, onde talvez erguesse um altar para o Hefesto australiano (Maui-Tiki-Tiki) que seus antepassados trouxeram da Oceania. Quem sabe se perguntasse, naquele momento, se, quando tragada pelo fogo; ganharia asas para voltar às terras de sua gente - Lagoa Santa - ao Parque do Sumidouro...

Sem esperanças de verem a fogueira quase inquisitória extinta, os Botocudos, mortos pela segunda e derradeira vez, envoltos por vapores infernais, vendo tudo ser incinerado, vaticinam: - Umnhý tóne: Esta vida é muito triste.

Obs.: escrito quando dessa tragédia, que no último dia 02 completou 01 ano. A devastação cultural continua...

* SÉRGIO CINTRA é Professor de Linguagens e de Redação em Cuiabá

sergiocintraprof@gmail.com

 

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