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Opinião

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Segunda-Feira, 03 de Março de 2014, 14h:26 | Atualizado:

Gabriel Novis Neves

Viagem

Gabriel Novis

 

Certa ocasião, o meu querido amigo e jornalista Marcos Coutinho, fundador do site Olhar Direto, me confessou que viajava muito. Entretanto, a preocupação com a arrumação da bagagem nublava o grande prazer causado por esses deslocamentos.

Resolveu então viajar apenas com os documentos essenciais e o cartão de crédito. Nada de malas ou bagagem de mão.

Ao chegar ao seu destino adquiria os artigos necessários. Roupas novas, mesmo de preços baixos, são sempre bonitas nas vitrines das lojas.

Antes de retornar deixava para os empregados do hotel tudo o que tinha comprado.

Explicou-me que essa medida simplificadora poupava-lhe tempo e aborrecimentos.

Disse-lhe que esse hábito, embora de aparência extravagante, fez-me lembrar de quando éramos crianças. Os pais eram os encarregados de tudo que uma viagem exigia, e a criança viajava sempre de mãos vazias.

Com a maturidade, no exercício da plena cidadania, os compromissos sociais vão aumentando, assim como a quantidade de tralha a ser deslocada, que acaba se confundindo com nós mesmos.

Já adquirimos manias e, com elas, objetos desnecessários já fazem parte do nosso dia a dia, e nem conseguimos imaginar qualquer deslocamento sem eles, por menor que seja.

A chegada do mundo digital trouxe com ela a bolsa masculina, absolutamente imprescindível para acomodar a parafernália sem a qual a vida se tornou mais difícil, para alguns até impossível.

De resto, achei essa ideia da compra de novas roupas no local de visita, sensacional. Além do compromisso com a praticidade, estaríamos dando vazão à necessidade do consumo, negadas por muitos, mas presente em todos nós. Afinal, explorar a vaidade de cada um é uma meta do sistema, ou não é?

Que tal usar o tempo de sobra em práticas mais saudáveis, como ir à biblioteca dos modernos hotéis para uma leitura sempre útil. Desfrutar de uma boa música ou até entrar na Internet para fofocar, moeda bem aceita entre nós. “Só não pode botar mãe no meio”, como diz meu amigo Villa.

Como é bom ser criança! E as crianças são loucas para crescer e virar adultos.

Coutinho tinha razão. Nasceu e morreu criança.

Gabriel Novis Neves é médico e ex-reitor da UFMT

 

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