10 de Abril de 2020,

Opinião

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Quinta-Feira, 26 de Março de 2020, 08h:58 | Atualizado:

Sebastião Carlos

Viva la muerte!

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Para aqueles que estudam a História, alguns fatos são mais marcantes que outros, independentemente da importância ou influencia que eles possam ter para o próprio decurso dos acontecimentos históricos. Um fato histórico que sempre me marcou desde os bancos escolares e que, estudante na Espanha procurei aprofundar na sua leitura, aconteceu em 12 de outubro de 1936. Impressiona-me ele tanto por testemunhar um inaudito confronto de ideias num momento de grande desigualdade para um dos lados, como pela universalidade do acontecimento que, extrapolando o fato em si, se presta a outros momentos importantes da História universal.

Em julho daquele ano havia tido inicio a Guerra Civil Espanhola [1936 – 1939]. As vitórias dos comandados por Francisco Franco se sucediam, caindo uma por uma as cidades da região sul e oeste e o exército dos rebeldes estava em inexorável marcha para a costa norte. A nação peninsular estava conflagrada. Na manhã daquele dia, a Universidade de Salamanca realizava a Sessão Magna que dava inicio ao ano letivo. A data coincidia com a comemoração do “Dia da Raça” [a data da Descoberta da América]. O auditório da secular Universidade estava apinhado. Altas figuras da sociedade, do empresariado, do clero, patentes militares e até a esposa de Franco, Da. Carmen, lá estavam. Na tribuna vários professores se revezavam, todos louvando o império espanhol e elogiando os Nacionalistas da Falange [o braço politico dos sublevados] e o generalíssimo Franco, enquanto que as imprecações se dirigiam contra comunistas, anarquistas, republicanos, intelectuais, professores, jornalistas, enfim contra todos os que se opunham aos fascistas, e também contra os bascos e os catalães, que eram chamados de anti-Espanha. A cada momento, se ouviam os brados de guerra falangista: “Espanha – Unida!”, “Espanha – Grande!”, “Espanha – Livre!”, “Muerte a los inimigos de la Pátria”. 

O reitor da Universidade era o respeitado e consagrado filósofo e poeta Miguel de Unamuno. No centro da mesa, ouvia a tudo calado. Sofria. Alguns de seus alunos haviam sido presos e torturados, outros tinham se exilado. Quando tocou a sua vez de falar, começou por dizer: “Eu já sei que estais esperando por minhas palavras, porque vós me conheceis bem e sabeis que não sou capaz de permanecer em silêncio ante o que está sendo dito. Silêncio, às vezes, significa assentimento, porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência. Já disse que não queria falar, porque eu me conheço. Mas fui puxado pela língua e tenho que fazê-lo.”. Prossegue, numa eloquência candente, incisiva. 

De repente, é interrompido por um brutal soco na mesa desferido pelo general José Millán-Astray. Tratava-se do fundador da Legião Espanhola e um dos mais altos e respeitados comandantes dos militares sublevados. Mutilado na guerra colonial da África, sem um braço e um dos olhos, era tido como um “mito” pelos franquistas mais estremados. Ante o olhar irônico do Reitor e a estupefação da maioria dos presentes, o general urra o lema da legião: “Viva Franco”, “Muerte a los intelectuales”, “Viva la muerte”. Nessa altura, aos gritos, os “camisas azuis” [que era o uniforme dos franquistas] tentam impedir a que o reitor prosseguisse com o discurso. 

Mas Unamuno consegue ainda pronunciar as seguintes palavras: “Acabo de ouvir o necrófilo e insensato grito Viva a Morte! Soa-me como se dissessem: Morra a Vida! Eu, que passei toda a minha vida criando paradoxos que excitavam a ira daqueles que não os compreendiam, eu tenho que dizer-vos, como uma autoridade na matéria, que este paradoxo ridículo me parece repelente. De maneira excessiva e tortuosa, foi proclamado em homenagem ao último orador, como um testemunho de que ele mesmo é um símbolo da morte. O general Millán-Astray é um inválido de guerra. Não é necessário dizê-lo em voz baixa. O mesmo o foi Cervantes. Mas estes extremos não se tocam, nem servem como norma. Infelizmente, hoje temos muitos inválidos na Espanha e logo haverá mais se Deus não nos ajudar. Dói-me pensar que o General Millán-Astray possa ditar as regras da psicologia às massas. Um inválido que não tenha a grandeza espiritual de Cervantes, ficará aliviado ao ver como aumentam os mutilados ao seu redor. O General Millán-Astray não é um espírito distinguido: ele quer criar uma nova Espanha à sua própria imagem. Por isso, o que deseja é ver uma Espanha mutilada, como acabou de dar a entender. [...]. Este é o templo do saber e eu sou seu sumo sacerdote. Vós estais profanando seu recinto sagrado. Seja o que disser o provérbio, eu sempre fui um profeta em minha própria terra. Vós ganhareis, mas não convencereis. Vencereis porque tendes força bruta, mas não convencereis porque convencer significa persuadir. E para convencer vós precisais de algo que vos falta nessa luta: razão e direito.”.

Unamuno, a essa altura, já não consegue prosseguir. Mais da metade do auditório se levanta e com os braços estendidos grita: “Espanha – Unida!”, “Espanha – Grande!”, “Espanha – Livre!”. O salão, e depois o pátio, vira uma imensa balburdia. Tropas invadem a Universidade. O Reitor é retirado à força e, ato contínuo, apresenta a renuncia. Em menos de três meses, iria falecer aquele que é considerado um dos maiores intelectuais europeus do século XX.

Suas palavras foram registradas por um estudante presente ao evento que, no exílio, seriam publicadas anos depois numa revista de Londres, dirigida por ninguém menos que George Orwell.

Mas, que palavras deixou. Intrépidas na ocasião, contemporâneas hoje. Por isso, passados tantos anos, sou por elas marcado e me impressionando ainda. Que lição de lucidez para um tempo de tanta insensatez que estamos vivendo. Um século que está engendrando a morte física e a morte da sensatez. A mensagem de Unamuno permanece viva, presente, inscrita em brasa nas páginas da História. Palavras para um tempo em que dirigentes, fugindo da sensatez e do humanismo, defendem o confronto e a morte e não a alegria, a paz, a esperança. 

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é professor e advogado. Diplomado em História.

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