08 de Julho de 2020,

Cultura

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Domingo, 24 de Maio de 2020, 21h:06 | Atualizado:

População cuiabana se reunia em bicas e chafarizes para namorar

Cuiabá cidade verde, mas a alcunha também poderia ser Cuiabá cidade cristalina. A ambientação urbana da capital mato-grossense foi toda construída seguindo o curso d’água, a exemplo da Prainha. Era nas bicas e chafariz que a população, ainda numa cidade que brotava, via a vida correr.

O primeiro reservatório de água potável de Cuiabá só foi construído em 1880, quando a cidade ainda era a Vila Real do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. De acordo com a historiadora Neila Barreto, que mapeou a distribuição de água na capital pelo seu livro “Bicas, fontes, chafarizes, Caixa d’água velha e a água de beber”, existiam sete fontes na capital mato-grossense.

As fontes eram a do Ernesto (Bica da Prainha), a de Maria Corrêa, a do Mundéu, a de Feliciana Gomes, a Manuel da Silva, a da Mandioca e outra atrás da Igreja Matriz.

No entanto, na Bica da Prainha (a do Ernesto), além de abastecer a população, era ponto de encontro de moradores. Lá, eles se reuniam para criticar os políticos da época, namorar, fazer vendas e às vezes até aconteciam brigas.

Aproveitando o serviço de abastecer a água do patrão, os escravos também comercializavam o líquido, assim como a população mais pobre. “Como os patrões mandavam os homens e mulheres buscarem água e vender para os moradores de Cuiabá. O homem, quando trazia o que bebia, o patrão dava um ‘x’ e as mulheres recebiam um ‘x’ a menos. Isso acontece desde essa época”, contextualiza. “A professora Dunga Rodrigues falou ‘já cansei de ver as pessoas dando dinheiro para as negras, para completar a quantia”, relembra.

Os escravos ressignificaram a tarefa cotidiana de ir à bica. “Como lá era aberto, ali também era o momento desses escravos e escravas, de comentaram sobre a vida deles, contar os ‘causos’, os problemas. Era ali também que eles namoravam e brigavam. Quebravam os potes de barro, que caiam na hora da briga”, descreve Neila.

A historiadora também recorda do Chafariz do Mundéu, localizada na praça Bispo José Antonio dos Reis, era a mais estruturada, levando em consideração a época em que foi construída. “O Chafariz do Mundéu, que foi restaurado, nas memórias de Dunga Rodrigues, ela conta que o chafariz era de abastecimento de água, de pessoas e animais, não tínhamos separado isso”.

Invisível aos nossos olhos, Neila ainda detalha a riqueza hídrica de Cuiabá, que está escondida pelo asfalto. “Tudo era fonte que brotava da terra, era natural. As fontes naturais em frente da Igreja da Nossa Senhora da Boa Morte faziam o abastecimento de água na região, as pessoas lavavam roupas. A avenida Mato Grosso também era muito rica em água. Tinha um baixo chamado Quarta-feira que também era. Hoje é tudo asfaltado”.

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