20 de Novembro de 2019,

Opinião

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Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h:00 | Atualizado:

Rodrigo Rodrigues

Corrupção

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Por ter iniciado minha militança partidária no PDT e hoje estar no PMDB, um amigo, ao qual tenho grande consideração me questionou se eu era contra a corrupção. Desde muito novo, eu sei que nenhum partido, qualquer que seja, é um convento de freiras. Expliquei para esse amigo, que a décadas, que o termo “corrupção" se tornou uma exclusividade dos agentes públicos desonestos. 

Porém, a palavra corrupção, deriva do latim e significa corromper, deteriorar. Em sentido literal, quer dizer deterioração física, putrefação. Em sentido figurado, significa degradação dos valores morais.

Nesses termos, o que pode ser mais imoral e pútrido do que o preconceito racial e a homofobia? 

O que me deixa realmente indignado são aqueles que entram na política apenas para beneficiar os seus negócios ou, simplesmente, por vaidade. Médico, padre, freira e político tem que ter vocação, tem que ter dom de servir ao próximo e não a si mesmo. O que me tira do sério é a incompetência de certos gestores. O que  não me desce a garganta é uma mãe levar um filho a um hospital e não conseguir atendimento. O que me entristece é o filho do pobre, do trabalhador não ter ensino digno de qualidade para que possa disputar de igual para igual seu espaço profissional com aqueles mais abastados.

O que me causa repulsa é esse "apartheid" camuflado que existe em nossa sociedade. Mais repulsa ainda me causa a retirada de direitos de minorias, como dos quilombolas, dos indígenas e a exclusão das maiorias "minorizadas".   

O que me enoja é a hipocrisia enraizada na nossa sociedade, porque o cidadão que se diz contra a corrupção, deve se portar de uma maneira impecável, obedecendo as leis de trânsito, não tentar burlar o imposto de renda, não sonegar impostos, resumindo, literalmente, tem que andar estritamente dentro da lei. Coisa que a nossa cultura não permite. 

Generalizando, todos acham que as leis e as regras só servem para os outros. São coisas pequenas e insignificantes, como aceitar dinheiro pra votar em determinado candidato ou votar em troco de um cargo, o tal jeitinho brasileiro de subornar o guarda, quando é pego cometendo alguma irregularidade, ou um simples recibo falso para pagar menos imposto de renda, ou um gato na luz ou na água, um atestado médico falso, que numa somatória nos faz um país corrupto e permissivo.

Nós  sabemos que o povo, em sua maioria, é trabalhador e honesto, honra seus compromissos e paga suas contas. Me causou náuseas, ver uma bancada de congressistas, bandidos, diga-se de passagem, a serviço de determinado segmento, por via de chantagem explícita, patrocinar um calote bilionário. Mostrado a exaustão em todas as redes de televisão, em todos os sites e jornais. E aquela classe média barulhenta, que foi as ruas vestida de verde e amarelo, esbravejando contra a corrupção e a má gestão se calou vergonhosamente nesse episódio e em vários outros que vem acontecendo recentemente.

Como disse um dos procuradores da Lava Jato, esses hipócritas elitizados que foram bater panela e destilar todo o seu ódio pelas redes sociais, não queria o fim da corrupção, tudo não passou de um capricho, de uma frustração do seu candidato, que é réu, por corrupção, não ter sido eleito. Se defendiam dizendo que não tinham corrupto de estimação. A verdade, é que o senhor Áecio Neves é quem tem uma monstruosa coleção de idiotas úteis de estimação. 

Em verdade eu vos digo que não é a propina da Odebecht, da OAS, ou o rombo na Petrobras, que me tira o sono ou que me deixe revoltado. O que eu nunca admiti e jamais aceitarei, é o desprezo  para com os professores, para com os profissionais da saúde, para com os policiais e para com os trabalhadores em geral. O que eu nunca admiti e jamais aceitarei, é esse discurso hipócrita, cínico, mentiroso, ardiloso, de combate a corrupção, que os sociopatas se apegam para chegar ao poder. Poderia citar, cem, duzentos exemplos da história contemporânea, mas vou me ater a esfera estadual. 

Vivemos hoje um estado inerte, concentrador de renda, dominado a quase duas décadas por um grupo econômico, que na proporção que se tornou milionário ou bilionário, os indicadores da educação, da segurança e da saúde pública despencaram. Transformando o estado em um dos piores do Brasil em termos de distribuição de renda. Este mesmo grupo, que na última eleição usou o artifício de eleger Pedro Taques com um discurso moralista, já se prepara para pular do barco e eleger um outro representante, para continuar tudo do jeito que está.

Já tivemos a ilusão de que um bom empresário, bem sucedido, seria a solução para os nossos problemas. Também já nos iludimos de que um ex-procurador tivesse um mínimo de compromisso com as causas sociais, sendo oriundo de uma instituição que tem por dever de ofício defender o cidadão e os interesses coletivos. Ledo engano, o povo de Mato Grosso caiu mais uma vez no conto do vigário.

Não é a corrupção deste grupo que está no poder a quase duas décadas e que desviou bilhões dos cofres públicos, que colocou a saúde na UTI, que fez com que as grandes e as pequenas cidades de Mato Grosso alcançassem os mesmos índices de criminalidade de Rio e São Paulo. 

Não foram o bilhões desviados das gestões passadas e da atual, que deixaram as escolas  sucateadas. 

A causa da nossa decadência está na falta de compromisso com as causas populares, está na ausência total de vocação para ser servidor público e na falta de ideologia, daqueles que elegemos. Sem medo de errar, eu digo que isso somado à incompetência, à omissão, à vaidade e aos interesses pessoais de certos  segmentos e ao fisiologismo,  causam muito mais danos a sociedade em geral do que a corrupção em si. 

Finalizo lembrando como também somos roubados por empresas privadas. Bancos, seguradoras, empresas aéreas, operadoras de telefonia e prestadores de serviços em geral. Somos roubados nos preços dos automóveis e dos combustíveis, nos juros dos cartões de crédito e por ai vai. Portanto corrupção não é e nunca foi exclusividade de agentes públicos.

Rodrigo Rodrigues é jornalista

 

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