02 de Julho de 2020,

Opinião

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Segunda-Feira, 29 de Junho de 2020, 08h:18 | Atualizado:

Gonçalo de Barros Neto

Ética e autenticidade

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Em época de relativismo, o individualismo faz sua marca de forma implacável. A possibilidade de tornar a natureza humana mero exercício de retórica de um ideal aristotélico adormecido no tempo, faz da moral apenas jogo de intenções a demandar adesões ou não conforme a necessidade de cada qual. 

Focar predicados morais na natureza humana significa aceitar a intuição como alavanca causal de comportamentos e modos de vida; um senso prático, a priori, capitaneado pela razão em que há conceitos inatos imunes ao tempo, ao espaço e ao relativismo subjetivista muito em voga nos dias atuais. 

Em plena modernidade, ainda no século XVIII, já era assente no pensamento crítico a busca pela autenticidade como forma de frear o impulso relativista, influenciado no contexto pragmático da luta pela ‘sobrevivência’, vale dizer, no comportamento ditado pelo mercado e pelo carreirismo em se dar bem num mundo competitivo. 

 A importância da autenticidade como ideal moral (termo utilizado por Charles Taylor) está na oposição ao individualismo ilimitado, apropriado por correntes liberais que relativiza a razão humana, ou ainda, desconsidera leis naturais próprias de um Ser racional, de ideais não só imanentes, mas igualmente transcendentes.

Interessante o fenômeno! Estamos a ter no relativismo e individualismo uma fraqueza orgânica que os tornam presas dóceis de um insaciável liberalismo econômico desenfreado e destituído de moralidade. Aliás, moral pra quê?

Olha o perigo a que a modernidade está sujeita: sendo a vontade uma espécie de causalidade para os seres racionais, a liberdade faz parte (propriedade) dessa causalidade. Sim, pois, os irracionais só tem necessidade e esta é o mote de suas ações, tão só. A liberdade, aqui, pode ser a construção de um ideal dentro de um sistema estruturante, e ‘vendida’ como condição da felicidade.

Mas na advertência kantiana, a liberdade não é uma propriedade da vontade, mas nem por isso é desprovida de lei (imperativo categórico, princípio da moralidade), sendo antes uma causalidade segundo leis imutáveis, pois, de outro modo, uma vontade livre seria um absurdo. Assim, vontade livre e vontade submetida a leis morais são uma só e a mesma coisa.

Mas esse imperativo sujeita também aos insaciáveis profetas do mercado? Eles o guardarão como uma moral de sanções éticas profundas?

Onde o burguês guarda a sua honra? O capital tem pátria? Pode-se esperar humanidade, a tempo e modo, no emprego do capital financeiro? 

Na liberdade há leis, como atributo e propriedade, que a faz possível e inflexível frente a seus inimigos, justamente àqueles que só a tomam por retórica, abandonando-a todas as vezes que as circunstâncias assim recomendarem. 

Onde basearia a experiência a sua certeza se todas as regras que empregasse fossem sempre empíricas e contingentes (Kant)? 

É por aí...

GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é articulista de A Gazeta aos domingos, graduado em Filosofia e Direito, da Academia Mato-Grossense de Magistrados e autor da página Bedelho.Filosófico (Face, Insta e You Tube).

 

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