17 de Fevereiro de 2020,

Opinião

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Domingo, 26 de Janeiro de 2020, 09h:40 | Atualizado:

Luiz Henrique Lima

Muito além de uma pirralha

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Enganam-se aqueles que pensam poder sufocar o debate sobre o agravamento da crise climática simplesmente agredindo ou tentando desqualificar a sua mais conhecida porta-voz, a ativista sueca Greta Thumberg. Foi o que tentou fazer o poderoso Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, durante pronunciamento no Fórum Econômico Mundial em Davos. Não deu certo.

Sua fala foi rechaçada não apenas pela opinião pública mundial, mas também pelas principais lideranças políticas e empresariais presentes ao encontro, a começar pela respeitada chanceler Angela Merkel que, mesmo representando um pensamento conservador, reconheceu a gravidade e a urgência do tema das mudanças climáticas e a importância do movimento de conscientização e protesto que mobiliza milhões de jovens em todos os continentes.

Para usar um termo desgastado, mas que no caso se aplica perfeitamente, o movimento Fridays for Future viralizou. A cada semana, ocorrem centenas de manifestações em dezenas de países. Algumas reúnem um punhado de estudantes, outras envolvem milhares de pessoas de todas as gerações. Embora Greta tenha sido a pioneira em 2018, nada teria essa duração e essa dimensão se o problema não fosse real e se as suas prováveis consequências não representassem uma grave ameaça global para as próximas gerações.

Toda a comunidade científica internacional utiliza como referência para esse debate os relatórios elaborados pelo IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, organização criada em 1988 por iniciativa da Organização Meteorológica Mundial e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

Cada relatório do IPCC demanda anos de trabalhos e discussões envolvendo centenas de cientistas das mais variadas especialidades (oceanógrafos, geógrafos, geólogos, físicos, epidemiologistas, biólogos, economistas etc.) e antes de ser divulgado é submetido a rigorosas avaliações independentes.

E com base nos diversos cenários apresentados pelo IPCC que se construíram os acordos internacionais, com destaque para a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, assinada no Rio de Janeiro em 1992, o Protocolo de Quioto de 1997 e o Acordo de Paris de 2016.

Diversos países elaboraram seus próprios estudos e levantamentos sobre os efeitos das mudanças climáticas. Um dos principais foi o Relatório Stern, coordenado pelo economista-chefe do Banco Mundial por solicitação do governo britânico. Nele ficou demonstrado que o custo de não enfrentar as mudanças climáticas é várias vezes superior ao custo de medidas de prevenção e mitigação.

No Brasil, trabalho conduzido por pesquisadores da USP, Unicamp, UFRJ, Embrapa e Fiocruz concluiu que o país poderá perder até 2050 cerca de R$ 3,6 trilhões em razão dos impactos provocados pelas mudanças climáticas. Um conjunto de auditorias operacionais do TCU apontou riscos muito graves não apenas para a Amazônia, mas para o agronegócio, o Semiárido e as zonas costeiras.

Em suma, goste-se ou não da imagem e das falas da jovem Greta, que uma irritada autoridade denominou pirralha, o fato é que a causa que ela abraçou diz respeito a um problema real e de máxima importância para todos. Não é à toa que essa foi uma das principais, senão a maior, pauta do Fórum Econômico Mundial de 2020.

Ainda esta semana a maior gestora de fundos de investimentos do planeta, a BlackRock, responsável por uma carteira de 7 trilhões de dólares, anunciou em carta ao mercado que a sustentabilidade será o centro de sua estratégia de investimentos. Centenas de líderes empresariais estão assumindo compromissos neste sentido.

A economia mundial está mudando, não por bondade ou boa vontade, mas por necessidade. Há nisso enormes oportunidades para países e regiões com fartura de biodiversidade, recursos hídricos e florestais, e potencial de geração de energia solar e eólica.

Enquanto isso, a maior autoridade brasileira presente em Davos notabilizou-se pela bizarra afirmação de que a destruição ambiental é provocada pelos pobres...

Luiz Henrique Lima é conselheiro substituto do TCE-MT.

 

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