04 de Julho de 2020,

Opinião

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Quarta-Feira, 31 de Dezembro de 1969, 20h:00 | Atualizado:

Paulo Lemos

O caso do promotor de Guarantã do Norte

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Embora num primeiro momento sejamos natural e instintivamente levados a repugnar os atos extravagantes praticados pelo senhor Fábio Camilo da Silva, promotor de justiça lotado em Guarantã do Norte/MT, tendo em vista que ninguém pode ser conivente com abuso de autoridade, agressão e danos, sinto que o caso carece de alguns esclarecimentos.

Há que se ter uma investigação mais e melhor aprofundada, com laudo médico, não só para a confirmação do nível de embriaguez por parte dele, bem como do uso ou não de outras substâncias psicoativas - capazes de causar fortes alterações nas funções básicas da mente - e, outrossim, dalgum transtorno, síndrome ou distúrbio psiquiátrico, que eventualmente pode ter deflagrado até mesmo um surto psicótico, como sói ocorrer, por exemplo, em sujeitos acometidos por bipolaridade - principalmente no estágio maníaco -, que é uma doença, pouco ou nada consentânea com o consumo de álcool e outras substâncias análogas, invariavelmente revelando-se ser uma mistura explosiva e perigosa. 

Existem outras possibilidades, como a reação orgânica causada quando do consumo de álcool com algum psicotrópico, lícito ou ilícito, mesmo que a pessoa não tenha um diagnóstico psiquiátrico crônico ou agudo.

Enfim, por detrás da autoridade, existe um ser humano, falível e não imune às vulnerabilidades diversamente manifestadas em cada indivíduo, como ao status de adicto ou transtorno de personalidade, para além das hipóteses ventiladas acima, não obstante a tantas outras. 

Às vezes, na maioria das vezes, essas pessoas, seja quem for, independente do cargo ou outra distinção de cor, credo ou raça, precisam mais de ajuda e tratamento, do que de julgamento e encarceramento. Muitos presos Brasil afora deveriam estar em clínicas de reabilitação, não em selas superlotadas.

Estaria o aludido personagem do lamentável episódio no pleno gozo das suas faculdades mentais, dentre elas a de percepção e julgamento, de compreensão e bom-senso? 

Olhe, não estou aqui defendendo a conduta do referido promotor, e, sim, a partir do reconhecimento da condição humana e da subjetividade da vida dele, até então desconhecidas por todos nós, tento acessar elementos e circunstâncias que possam ajudar na compreensão do que o levou a agir da maneira que agiu, colocando sua carreira na berlinda e comprometendo sua vida pessoal. 

Afinal de contas, as coisas não serão fáceis para ele, depois desses episódios. A ressaca e a dor de cabeça serão avassaladoras, até pela exposição ocorrida das atitudes reprováveis e descabidas, indubitavelmente cometidas pelo promotor.

Concordo que ele tem de ser imediatamente afastado da função e responder aos procedimentos previstos, em cada esfera cabível e, ao final, receber a sanção que for devida, mediante o que for apurado e confirmado.

Porém, a despeito dos erros cometidos, ante a estranheza de tudo o que se sucedeu, parece-me mais oportuno e conveniente esperar a elucidação dos fatos, sobretudo a respeito da situação psicológica em que se encontrava, para entender o que motivou os acontecimentos exóticos, amplamente repercutidos, antes de proferir um veredito final.

Todos têm direito ao contraditório e à ampla defesa, assim como ao devido processo legal, por pior que sejam as acusações que recaiam sobre qualquer um de nós. Quem nunca cometeu faltas e falhas? 

A execração pública e o justiçamento popular são os melhores remédios e tratamentos para os males da vida? Tenho notícias de que Fábio foi sedado e está hospitalizado. Parece que seus familiares estão a caminho.

O maior prejudicado com tudo isso será ele próprio. Pode, inclusive, perder o cargo e responder por vários delitos, supostamente praticados em ato contínuo, contra os policiais militares - que, segundo consta, agiram de forma admiravelmente equilibrada e altamente profissional -, assim como em face de patrimônio privado, ao quebrar a porta duma TV da cidade, e da integridade física de toda a coletividade, ao dirigir aparentemente sobre efeito de substâncias indevidas.

Mas, o "x" da questão é: "o que leva alguém a jogar para o alto uma carreira promissora e ter de enfrentar todo o revés que se voltou contra ele a partir das suas próprias atitudes? Seria a mera banalidade do mal? Pode haver, de dentro para fora, algo a mais, guardado nos lugares mais recônditos da pessoa humana? Ou, de fora para dentro, algum caso fortuito ou de força maior?

Existem segredos dentro de nós que sequer conhecemos. Desvendar a natureza e a subjetividade humana é quase como descobrir e mapear uma galáxia, senão o Universo inteiro. 

Por fim, como fiz questão de registrar no texto, nem de longe ou de perto defendo o comportamento denunciado do promotor de Guarantã do Norte. Porém, ao revés de simplesmente julgar, penso que é importante tentar compreender.  

Paulo Lemos é advogado em Mato Grosso e acadêmico de psicologia na UNIFLOR.

 

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