13 de Julho de 2020,

Opinião

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Sábado, 15 de Fevereiro de 2014, 20h:46 | Atualizado:

Rodrigo Rodrigues

O crime da cor

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Li uma noticia que me deixou indignado. A princípio, achei péssimo, mas depois nem tanto, me sinto aliviado de não ter perdido a capacidade de me indignar, ainda que isso nos tragam alguns estigmas negativos. 

 

Somos chatos, loucos, inconvenientes, somos processados e, até mesmo, discriminados em determinadas rodas sociais.

 

A noticia em um jornal eletrônico anunciava a condenação da professora Jacy Proença, que foi, entre outras coisas, vice-prefeita de Cuiabá.

 

O caso em que Jacy foi condenada se deu em 2006 e seria referente a uma divida de campanha. Segundo a denúncia, a professora teria contratado uma gráfica para confeccionar material de campanha e efetuou pagamentos com cheques sem fundo. 

 

Para quitar a dívida, de cinco mil reais - veja bem: cinco mil reais - não é milhões como estamos acostumados a ver quando caso é corrupção, Proença teria feito uma tomada de preço direcionada à empresa.

 

Não se sabe por que, depois de concordar e receber o valor da divida, o empresário voltou atrás e denunciou o caso. 

Obviamente, podemos imaginar os motivos que levaram o empresário a fazer isso. Podem ser vários, menos por honestidade e dever cívico, pois, se fosse honesto e ético, não teria topado participar.

 

Penso eu que crime é crime, se um camarada rouba uma casa ou desvia dinheiro público, é ladrão do mesmo jeito. 

 

Mas, no Brasil, e em especial aqui no Mato Grosso, a realidade é bem diferente: ladrão de casa é bandido, ladrão de dinheiro público é esperto e goza de respeito.

 

Culturalmente, somos permissivos com a corrupção. Reclamamos, denunciamos, mas somos tolerantes com o ladrão de dinheiro publico. Não temos dó do ladrãozinho de varal, ainda mais ser for negro, que é o caso da maioria. 

 

O grande pecado no Brasil é roubar pouco. Tem até um ditado antigo que diz que roubar não é feio, feio é não dar conta de carregar. 

 

Hoje em dia, podemos até dizer que feio mesmo, e fora de moda, é ser honesto.

O Ministério Público de Mato Grosso, que há quase uma década é comandado pelo grupo do atual procurador Paulo Prado, dá uma baita de uma contribuição para que essa cultura “permissiva”, de tolerância e, por que não dizer?, de adoração, de idolatria, ao corrupto, se dissemine. 

Temos, reiteradas vezes, assistido à omissão, ou ação conivente, com os bandidos engravatados por parte de alguns promotores. 

 

 

Sempre afirmei e continuo a afirmar que esses maus funcionários são uma minoria, pois a maioria dos membros desta, ainda, respeitada instituição é séria e abnegada. 

 

Poderia escrever aqui cem páginas listando os casos de corrupção no nosso estado, de varias instituições. Mas nem precisa, todos sabem, pois já foram manchetes em todos os jornais. 

Não estou aqui para defender a inocência da professora Jacy Proença, nem justificar que, pelo valor irrisório, perto de outras centenas de denuncias que temos conhecimento, ela não tenha que pagar pelo crime. Mas, com certeza, de todos crimes de corrupção que temos noticia, este é o que menos prejuízo trouxe à sociedade.

 

Jacy Proença foi condenada a quatros anos de reclusão por desvio de cinco mil reais. 

 

O caso não chama atenção só pelo valor em si, mas principalmente pela condenação. E daí, se juntarmos o fato da condenação e do valor desviado, veremos que um “caso” dos mais raros em nosso estado, principalmente em um momentos que vivenciamos denuncias do porte da operação Ararath, que envolve tesoureiro de senador, políticos e empresários. 

 

Que envolve evasão de divisas, sonegação fiscal, licitações fraudulentas, agiotagem, caixa-dois de campanha, compra de votos e tráfico de drogas. Que envolve somas milionárias.

 

Realmente, chega a ser uma piada que uma pessoa com histórico de lutas sociais, com relevantes trabalhos prestados às causas dos menos favorecidos, seja condenada, enquanto os verdadeiros bandidos, aqueles que são altamente nocivos à nossa sociedade, circulam por aí em seus reluzentes carros importado, sendo reverenciados e recebidos com tapetes vermelhos - inclusive, por diversos magistrados e promotores.

 

Acredito que Jacy cometeu três grandes crimes em sua vida. O primeiro foi nascer negra, o segundo ter nascido pobre e o terceiro, ter escolhido a profissão de professor. Isso em nossa atual sociedade é imperdoável.

 

E aqueles que dizem que somos inconvenientes, chatos, ou loucos, por escancarar a verdade sem medo, e às vezes afrontar aqueles que detém o poder, me apego ao pensamento do professor Darcy Ribeiro: “Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”. 

 

No final de sua vida, o professor Darcy Ribeiro concluiu: “Foram varias as minhas lutas, fracassei em tudo. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios e não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

 

Força, professora Jacy, a luta continua!

 

RODRIGO RODRIGUES é jornalista em Cuiabá.

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