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Sexta-Feira, 05 de Junho de 2020, 14h:53 | Atualizado:

Eustáquio Rodrigues

Vidas de pretos importam

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Uma onda de protestos está chacoalhando os Estados Unidos após o covarde assassinato de George Floyd, preto, por um policial branco. O cidadão foi assassinado por asfixia, com o policial pressionando o pescoço da vítima com o joelho, diante de outros policiais impassíveis e uma pequena multidão horrorizada. Mas, o que essa imagem transmite?

Claro, óbvio que todas as vidas importam. O problema é que precisamos avisar isso aos policiais, ao sistema judicial, ao sistema econômico, ao sistema político e à toda sociedade civil, pois, sistematicamente direitos dos negros vêm sendo ignorados ou desrespeitados apenas pela cor da sua pele. Engana-se ou mente para si mesmo quem afirma que não existe racismo. Vou mais longe: a pessoa que não acredita ou não enxerga que há todo um sistema fundamentado e estruturado para marginalizar pessoas de cor ou age com hipocrisia ou está totalmente alienado da sociedade em que vive.

Várias etnias ou grupos ou comunidades já foram perseguidas, vilipendiadas ou massacrada em algum momento da história. Judeus durante o holocausto, índios na colonização das Américas, aborígenes na tomada da Oceania, curdos nos conflitos do Oriente Médio, porém, nenhuma dessas e nenhuma outra na história sofreu e sofre com um bem orquestrado sistema de marginalização e opressão como a população negra, e isso desde o século XVI, ou seja, mais de 500 anos de perseguição, genocídio e estigmatização.

Tudo isso resulta em uma desigualdade abismal e encarada absolutamente como normal: com quantos médicos e dentistas pretos você já se consultou? Teve quantas audiências com juízes pretos na vida? Quando você foi em um restaurante chique, quantos negros você viu sentado à mesa e quantos viu servindo? Quantos presidentes negros o seu país já teve? Quantos protagonistas negros há exatamente hoje em todos os telejornais e telenovelas? Invertendo um pouco a lógica: qual a cor da maioria dos mendigos e moradores de rua? Qual a cor predominante nas prisões? Qual a cor da maioria dos moradores de favelas e bairros miseráveis? Qual é o tom de pele dos jovens mortos covarde, descuidada e desnecessariamente pelo aparato policial (ou seguranças privados?).

E mesmo com todas essas mazelas, quando há tentativas de curto e médio prazo para mudar um pouco essa lógica, por meio de ações afirmativas, as quais têm o principal objetivo de inserir o negro onde ele é sub-representado ou totalmente inexistente, elas são acusadas de um racismo invertido, numa argumentação capciosa e desonesta, como se fosse possível esse exercício de inserir no dia a dia dos brancos atitudes de discriminação e preconceito apenas por serem brancos. Ou você já ouviu alguma história de um branco ser impedido de entrar em um restaurante apenas pela sua cor? Ou um branco que foi preterido num emprego apenas por ser ˜claro demais˜? Ou barrado em algum local público por suspeita de ser criminoso?

Pouco a pouco as máscaras racistas caem, pois estão sendo filmadas. Pouco a pouco a hipocrisia vai ao chão, pois a informação corre quase que na velocidade do pensamento. Pouco a pouco o “basta” está se tornando um claro e definitivo “chega”. Mas até quando veremos notícias como essa de George Floyd ou do menino João Pedro? Até quando?

P.s: escrevo esse texto triste e emocionado e dou minhas condolências à família do menino Miguel, morto tragicamente. Você deve imaginar a cor dele.

Eustáquio Rodrigues Filho – Cristão, Servidor Público e Escritor. Autor do livro “Um instante para sempre”. Instagram: @epelomundo

 

 

 

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Comentários (1)

  • Fernanda | Terça-Feira, 09 de Junho de 2020, 11h19
    1
    0

    Texto necessário! 👏👏👏👏👏👏

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