21 de Julho de 2019,

Esporte

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Domingo, 14 de Julho de 2019, 07h:30 | Atualizado:

Time feminino do Operário é mantido com salário de aposentada


Gazeta Digital

O número 827 da rua Comendador Henrique, no bairro Dom Aquino, na Capital, abriga o alojamento das jogadoras de futebol feminino do Operário Futebol Clube. A casa cor-de-rosa é da família da servidora pública aposentada Elair Brito, 59. Sem ela, muito possivelmente o sonho das 18 meninas que moram no local seria inviabilizado.

É dona Juju, como ela é conhecida, quem carrega o time nas costas. Ela é responsável por financiar as despesas com a alimentação, transporte, moradia e os eventuais gastos que o time possa ter. De seu salário, desembolsa quase R$ 10 mil por mês.

"Falta muito investimento no futebol feminino no Brasil, mas em Mato Grosso ele ainda é mais cruel. Não incentivam, não apoiam, não tem investidor, não tem patrocínio. A gente não tem um suporte para fazer o futebol feminino funcionar. É tudo na garra, na determinação e na vontade de ver essas meninas entrarem em campo", explicou. 

Fanática por futebol, foi em 2008 que ela decidiu investir no time feminino do Operário. Até então, em Cuiabá o Mixto Esporte Clube era o único clube a ter um time só com mulheres. Dona Juju, então, comprou uma briga com a Federação Mato-grossense de Futebol (FMF) para a realização de um campeonato entre as equipes. 

No ano seguinte, em 2009, foi realizado o primeiro Estadual com 6 equipes de Mato Grosso. Desde então, o time feminino do Operário continuou, mas, mesmo com todo o esforço de Elair, nunca teve o incentivo e suporte necessário. 

"Eu sempre repenso se vale a pena fazer tanto investimento em um campeonato que não tem estrutura para dar melhor visibilidade para as meninas. Elas buscam isso, ser vista, ganhar oportunidade, ir para fora de Mato Grosso, realizar os sonhos e é por isso que a gente trabalha. Chega um ponto que fica inviável, porque as meninas não querem mais jogar bola por prazer, elas querem receber e é mais que justo", conta a aposentada. 

A paulista Amanda Inácio, 20, e a várzea-grandense Mikaelle Santana, 21, encontraram no apoio de dona Juju o que precisavam para dar o pontapé na carreira profissional. As duas começaram a jogar na rua, com os meninos, quando ainda eram crianças, aos 11 anos. Elas sempre tiveram o sonho de levar o esporte como profissão, mas o gênero era um empecilho. 

Sem o apoio da família, por considerar que o esporte era de menino e não dava dinheiro, tanto Mikaelle quanto Amanda precisaram ser insistentes. Em sua cidade natal, Piracicaba, Amanda começou a treinar em uma escolinha de um sindicato. Mikaelle, por sua vez, foi convidada por um técnico para jogar no time masculino, sua única opção na época. 

Hoje em dia se dedicam integramente ao esporte. Os treinos acontecem ao menos uma vez por dia, de segunda à sábado, no Ginásio Dom Aquino. Tudo o que recebem é a ajuda de custo dada por Elair. A alimentação das meninas é servida no restaurante da família da aposentado, vizinho ao alojamento.       

"O meu sonho é participar e conhecer outros clubes de fora. Pode ser um time pequeno e se der certo subir para um maior. Porque meu sonho é realmente ser jogadora e fazer só isso. O que eu sei fazer praticamente é isso", afirmou Mikaelle. "O que eu quero é conseguir ajudar a  minha família com o dinheiro que eu conseguir ganhar", completou Amanda.

Desistência 

Tanto Mikaelle quanto Amanda já pensaram em abandonar a carreira. Sem receber um salário e sem nenhum incentivo, o destino de muitas jogadoras é desistir da profissão, conforme explicou dona Juju. Muitas procuram outro trabalho para conseguir sobreviver e pagar as contas. 

"Ou elas trabalham ou jogam futebol. Se elas trabalham, sobra uma noite pra treinar e hoje o futebol não funciona assim. O futebol é treinamento, preparação, estar bem fisicamente. O futebol masculino tem todo um aparato, enquanto o feminino ainda está engatinhando", disse Juju. 

No dia em que o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de Futebol feminino, em 23 de junho, ao perder para a França, a jogadora Marta Silva, camisa 10 da seleção feminina deu o alerta: "a gente pede tanto, pede apoio, mas a gente também precisa valorizar. Não vai ter uma Formiga para sempre, uma Marta, uma Cristiane. O futebol feminino depende de vocês para sobreviver". 

Mikaelle, Amanda e as outras 16 jogadoras do Operário têm potencial e o sonho de serem a camisa 10 da seleção brasileira. Sem o apoio de Dona Juju e de seu salário como aposentada e com a falta de investimento no futebol feminino, no entanto, devem continuar engatinhando.

 

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