12 de Agosto de 2020,

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Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 09h:00 | Atualizado:

Luiz Henrique Lima

A vaia no avião

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Imagino que o leitor esteja familiarizado com a situação de viajar em avião comercial.

Durante todo o tempo do voo, e nos procedimentos de embarque e desembarque, os passageiros são confinados em espaço restrito, geralmente em poltronas apertadas às quais estão atados por cintos de segurança.

Nesse intervalo, compartilham seu destino com dezenas de desconhecidos, cuja única afinidade aparente foi a escolha do itinerário e horário.

Some-se a isso circunstâncias perturbadoras como atrasos, turbulências e o estresse individual de cada viajante e tem-se um cenário potencial para múltiplas situações de conflito, a começar pela disputa de espaço no compartimento de bagagens.

Ao longo do tempo, as pessoas polidas foram desenvolvendo padrões de comportamento para tornar tal convivência suportável.

Por exemplo: a proibição de fumar a bordo ou a utilização de fones de ouvido para que as preferências musicais de um não atrapalhem o sono dos outros.

Assim, busca-se respeitar a privacidade dos demais passageiros, com base no princípio de não fazer a outrem o que não se quer que nos façam.

Episódios recentes parecem indicar que a prolongada crise econômica, política e ética que o país atravessa está provocando um retrocesso civilizatório em certos segmentos.

Tempos atrás, num voo Brasília-Rio de Janeiro, uma conhecida jornalista foi duramente hostilizada por militantes partidários que retornavam de uma convenção e julgaram que xingamentos eram a forma mais inteligente de expressar seu descontentamento com as críticas que a jornalista fazia à política econômica então praticada.

Em outra ocasião, parlamentares foram vítimas de apupos e acusações de cumplicidade com crimes praticados por seus correligionários. Há poucos dias, um magistrado, ministro do STF, foi submetido a constrangimento moral em voo Brasília-Cuiabá.

Considero todas essas manifestações grosseiras, covardes e intolerantes. Grosseiras, porque agridem a privacidade da pessoa; covardes, porque perpetradas por bandos contra indivíduos; intolerantes, porque vomitam slogans e ofensas contra alguém de cujo posicionamento discordam.

Um elemento agravante nesses casos e houve outros, semelhantes, em restaurantes, cinemas etc. é que os agressores se comprazem em divulgar a própria incivilidade filmando-a e multiplicando-a por meio de redes sociais.

Quando expressei essa minha crítica num círculo restrito, composto majoritariamente por magistrados de contas, fui surpreendido com as teses de que "a vaia é um direito do povo" ou que "Fulano ou Fulana fizeram por merecer".

Ora, não interessa se o personagem em questão é um ex-governador corrupto confesso ou um ex-presidente condenado por corrupção.

Não interessa se é um parlamentar omisso, um juiz polêmico, um repórter tendencioso, um artista sem talento ou um atleta responsável pela derrota de sua equipe.

Não cabe a ninguém o direito ao justiçamento público com agressões físicas ou verbais. Isso não é democracia. Isso só alimenta uma espiral de ódio e em nada contribui para solucionar os problemas do país ou do povo, que, aliás, não é representado por passageiros de avião ou fregueses de restaurante.

Há dois anos escrevi um artigo condenando episódios em que foram vaiados a então presidente da República e o governador de São Paulo. Na ocasião sustentei que a vaia, como a pichação, se justifica nas ditaduras, quando não há possibilidade de debate ou crítica.

A vaia é tolerada em competições esportivas quando um atleta atua com deslealdade ou o árbitro comete um erro flagrante. Mas a democracia não admite a violência como arma política.

E a vaia é uma violência, não física, mas moral, que agride e fere tanto quanto um tabefe. A vaia tem DNA autoritário, inviabiliza o diálogo, tumultua o debate e estimula a radicalização inconsequente.

Precisamos vaiar menos e dialogar mais, formulando, quando necessário, críticas públicas a quaisquer autoridades ou personalidades, sem refugiarmo-nos no anonimato covarde.

E, se possível, voemos tranquilos.

LUIZ HENRIQUE LIMA é conselheiro substituto do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT).

 



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Comentários (13)

  • Maxuel | Domingo, 04 de Fevereiro de 2018, 10h26
    9
    1

    Velho corporativismo de sempre. Do que adianta se combater com argumentos, igual feito com o imoral recebimento de 500 mil reais de um juiz de Sinop, que foi motivo de materias e debates a nivel nacional, sabe qual foi a resposta publica dele aos questionamentos? "Nao estou nem ai!". Chacota com o povo, defendida pelas associações de classe e pelos nobres magistrados.

  • Maxuel | Domingo, 04 de Fevereiro de 2018, 10h25
    8
    1

    Velho corporativismo de sempre. Do que adianta se combater com argumentos, igual feito com o imoral recebimento de 500 mil reais de um juiz de Sinop, que foi motivo de materias e debates a nivel nacional, sabe qual foi a resposta publica dele aos questionamentos? "Nao estou nem ai!". Chacota com o povo, defendida pelas associações de classe e pelos nobres magistrados.

  • Zabrah | Domingo, 04 de Fevereiro de 2018, 09h56
    10
    1

    Temos que ter muita paciência com vocês Conselheiros Autoridades e Dignatarios

  • alexandre | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 20h35
    25
    4

    tem um ditado antigo que diz : se não aprende no amor, vai pela dor, os politicos não vão melhorar sozinhos, sem pressão popular...

  • ROBERTO RUAS | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 18h37
    17
    4

    Ia comentar algo , mas desisti. Acho que trata-se de um ferrenho defensor de tudo que está aí.

  • Amanda Duarte | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 18h27
    14
    3

    Até porque não tem eficácia nenhuma, vocês acham que esses políticos, juristas estão preocupados com o que a sociedade pensa deles?

  • Manuela | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 18h20
    22
    4

    Sabe o que é isso senhor conselheiro? É o fim da paciência do brasileiro. O senhor ainda não viu nada. O brasileiro ainda está agredindo só com palavras, não me assustarei quando passar para a agressão física. Falar para agir com educação e parcimônia é muito fácil na condição em que o senhor se encontra. Em um cargo público de boa remuneração. Mas sua situação não é a mesma da maioria dos brasileiros que não tem o retorno efetivo de nenhum dos Poderes do País, no qual o Executivo, Legislativo e Judiciário se misturam e por fim acabam sem nenhuma serventia.

  • Edmar Roberto Prandini | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 18h03
    5
    17

    Constranger pessoas publicamente só se configura em gesto político para aqueles que consideram o modo de agir nazista. O nazismo habitualmente estimulava atos de confrontação àqueles que pretendia linchar das sociedades em nome da sua perniciosa ideologia de superioridade racial. Um adepto da democracia contronta as posições políticas e ideológicas do adversário, nunca o seu direito de ir e vir, nem sua dignidade. Excelente texto! Parabéns!

  • Úúúúúúhhhhh | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 14h57
    13
    7

    Bla bla bla

  • Stefano | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 11h53
    24
    6

    Sou favorável a manifestações sim. PRINCIPALMENTE essa contra o Gilmar Mendes.

  • Eduardo | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 11h48
    20
    6

    Discordo, a panela de pressão, alimentada pela irresponsabilidade e demagogia de todas matizes politicas, é que já encheu a paciência do povo. Isso é só o começo, se continuar a desfaçatez e conluio de verdadeiras facções no poder.

  • Marcelo Arruda | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 10h24
    22
    5

    Ok. Então acha prudente e exequível que os passageiros chamem o arrogante ministro do STF para um diálogo no saguão do aeroporto? Certamente ele irá.

  • Rogério | Sábado, 03 de Fevereiro de 2018, 09h46
    10
    26

    Pra mim foi falta de educação.

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