17 de Fevereiro de 2020,

Opinião

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Quinta-Feira, 16 de Janeiro de 2020, 15h:56 | Atualizado:

Lenine Póvoas

Fim da escola Nilo Póvoas: ignorância, desprezo ou questões administrativas?

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O Governo do Estado recentemente anunciou o fechamento da Escola Nilo Póvoas. O argumento para encerrar as atividades na instituição de mais de 50 anos, que formou inúmeras personalidades mato-grossense, seria de que a sua estrutura para cerca de 1.000 alunos estava atendendo menos de 200, tornando inviável a continuidade das atividades. Em 2020 os estudantes serão designados para a Escola Antônio Epaminondas.

Evidentemente que a sociedade compreende o difícil momento econômico do Estado. Muitas vezes são fundamentais reformas para resolver problemas administrativos. Por mais que seja necessário a junção de duas instituições para que o Poder Público possa suportar o custo da formação das próximas gerações, o grande questionamento que fica é: a extinção da homenagem a Nilo Póvoas seria ignorância ou simplesmente desprezo?

Por ser goiano, talvez o Governador não conheça com tanta profundidade a biografia e as contribuições de Nilo Póvoas para com o progresso de Mato Grosso.

Nilo Póvoas foi advogado, funcionário público, historiador, jornalista, professor de literatura e de língua portuguesa, membro da Academia Mato-Grossense de Letras e educador. Deu aulas até mesmo no Rio de Janeiro, então Capital da República, o que era atípico naquela época para uma pessoa de um rincão brasileiro. 

Desde a sua juventude demonstrou que tinha muito a oferecer a Cuiabá. Foi um dos fundadores do “Grêmio Literário Álvares de Azevedo”, que funcionou por anos no Liceu Salesiano. Participava de Grupos de Teatro. Aos 27 anos de idade lançou o seu primeiro livro: “A Política de Mato Grosso e a Intervenção Federal” (1918).  Lecionava gratuitamente em sua casa para pessoas humildades e que precisavam de aulas de reforço. A sua vida foi praticamente toda dedicada para a docência.

Foi Fiel de Tesoureiro dos Correios (1911-1916), contador da Tipografia Oficial (Chefe da Seção de Estatística do Tesouro do Estado), redator de debates da Assembleia Legislativa, Diretor da Escola Pedro Celestino, Secretário particular do Governo Mário Corrêa da Costa (1935), Diretor do Expediente Estadual (1951) e da Biblioteca Estadual no Governo Fernando Corrêa da Costa, e Diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFMT.

Fundou vários órgãos da imprensa local, dentre eles “A Opinião” (1914), “Cuiabá Revista” (1920) e “O Motorista” (1930). Colaborou, ainda, com inúmeros outros veículos de comunicação, os quais, naquela época, não viviam de incentivos governamentais e, portanto, tinham pautas independentes.

Escreveu o “Esboço da História da Literatura Brasileira”, “A analogia na evolução da linguagem” (1951) e “A suposta Língua Brasileira” (1966). Publicou trabalhos relevantíssimos que se perderam com o tempo por negligência do Poder Público. Pelo visto o atentado cultural ainda não acabou. 

Entrou e saiu da vida pública pobre. A sua situação econômica era tão ruim que não deixou recursos sequer para custear o seu funeral, o qual teve que ser pago por seu filho. A vida financeira era tão precária que a sua obra “Galeria dos Varões Ilustres de Mato Grosso” não foi editada em vida por dificuldades financeiras, o que só foi possível em 1977 por intermédio da Fundação Cultural de Mato Grosso, hoje conhecida como Secretaria Estadual de Cultura.

Nilo Póvoas proferiu uma conferência na Academia Mato-Grossense de Letras intitulada “Tradições que se extinguem” (1963). Parece que o Professor antevia o que estava por acontecer, e pelo visto continua acontecendo, agora com o seu legado.

O seu falecimento ocorreu em 07 de abril. Muito embora no dia seguinte fossem ter homenagens em Cuiabá por ocasião do aniversário da cidade, todas foram canceladas pelo então Prefeito Frederico Campos em respeito e luto pela perda irreparável, demonstrando que Mato Grosso já teve autoridades com respeito à cultura local.

O pesar se estendeu e gerou manifestações múltiplas, seja do Governo do Estado (gestão Pedro Predossian), na Câmara Federal (Deputado Federal Dr. José Feliciano de Figueiredo), na Assembleia Legislativa (Deputados Emanuel Pinheiro da Silva Primo e Milton Figueiredo), na Câmara Municipal (Vereadores Estevão Torquato da Silva, Antônio Ribeiro Leite Filho, Lino Miranda, Fuad José Mubarak e Itrio Rodrigues da Fonseca), inclusive com um minuto de silêncio, no Tribunal de Justiça (Desembargador Cesarino Delfino César), na Igreja (Padre Firmo Pinto Duarte Filho), na Academia Mato-Grossense de Letras (Padre Wanir Delfino Cesar e Maria de Arruda Müller) e por outras inúmeras personalidades (Rubens de Mendonça, Silva Freire, etc.)

Em deferência a sua importância histórica, o legislativo municipal criou a Avenida Professor Nilo Póvoas no Bairro Dom Jesus (Lei Municipal nº 948/1967). Infelizmente essa homenagem também já foi extinta.

Já o Governo do Estado deu o nome a um dos maiores colégios da época de “Escola Nilo Póvoas”. As vagas eram disputadíssimas. Ali a educação era similar àquela que foi repassada pelo homenageado: formidável. Pais dormiam na fila para matricular seus filhos. A estrutura era impressionante e atualmente as aulas eram em período integral, sendo flagrante o benefício para a coletividade.

Dentre seus parentes, cabe destacar seu irmão, Isac Póvoas, ex-Prefeito de Cuiabá, seu filho, Lenine Póvoas, que foi Mestre pela UFMT, integrante do Instituto Geográfico e Histórico de Mato Grosso, Deputado Estadual por dois mandatos, Conselheiro e Presidente do TCE/MT, Vice-Governador, Presidente da Federação Mato-Grossense de Mineração, Chefe da Casa Civil, Secretário Estadual de Administração, Fundador e Presidente da Fundação Cultura (hoje Secretaria Estadual de Cultura), Presidente da Federação Mato-Grossense dos Desportos, integrante da Academia Mato-Grossense de Letras, Casa esta que presidiu por mais de 10 anos, historiador com mais de 30 obras publicadas e Professor, além de sua neta, Maria Helena Póvoas, única mulher a presidir a OAB/MT até hoje, inclusive por dois mandatos consecutivos, que atualmente ocupa o cargo de Desembargadora do TJ/MT.

O sepultamento ocorreu exatamente na data de maior festividade para os cuiabanos: 08 de abril, aniversário da cidade. Em 2016, no dia dos Professores, a Rede Globo produziu uma homenagem a Nilo Póvoas, classificando-o como um dos educadores mais importantes que o Estado já revelou (https://globoplay.globo.com/v/5379509/).

Em texto publicado em 2014 sob o título “Falecimento Cultural Anunciado” tive a oportunidade de registrar que pessoas de outras Estados, por muito mérito, dominaram a econômica mato-grossense e depois tomaram as rédeas do Poder Público. 

Trata-se de uma consequência natural. A história da humanidade está repleta de exemplos nessa diretriz. Não há nenhum problema nessa situação, desde que os novos governantes não sejam, por ignorância ou desprezo, segregacionistas com a cultura local (http://www.povoasdeabreu.adv.br/?page=artigo&Id=15).

Caso isso ocorra, a situação precisa ser veementemente combatida pelos que amam esta terra, independentemente de serem daqui. Aqueles que ainda não se deixaram seduzir pelas riquezas materiais ofertadas em troca do silêncio ensurdecedor que a nossa história lança têm que reagir.

Se a homenagem é retirada de um local por questões políticas, que se coloque em outro, e num estabelecimento, prédio ou monumento à altura!

LENINE PÓVOAS é advogado, especialista e Mestre em Direito pela PUC/SP, e bisneto do Professor Nilo Póvoas.

 

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Comentários (1)

  • Wellington | Sexta-Feira, 17 de Janeiro de 2020, 08h11
    2
    0

    Ok, mas cadê a parte da questão administrativa?

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